terça-feira, 26 de maio de 2026 16:29:48

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Sonhos, o Mistério que Persiste – Podemos chamar de sonho o fenômeno psíquico…

Podemos chamar de sonho ao fenômeno psíquico espontâneo de produção de imagens e representações de idéias que involuntariamente ocorrem durante o período de sono. Desde a antiguidade mais remota o ser humano se preocupa com a elucidação dos mistérios oníricos. As culturas arcaicas os interpretavam como oráculos ou instrumento de premonição, e as mitologias de todos os povos, sem exceção, valorizavam-nos como linguagem de seus deuses.
Homero reforça tal idéia tanto na Ilíada como na Odisséia (séc. VIII a.C.). Referências mais remotas são encontradas no Antigo Egito, a partir da 10a dinastia (cerca de 2070 a.C.), no texto do faraó Mervkare, que incluía chaves para a decifração dos sonhos. Já o Papiro Chester Beatty III, datado por volta de 1785 a.C., atribuído à 12a dinastia, oferece 28 fórmulas de agouro para entendimento dos elementos oníricos, algo como: “Se um homem se vê em sonho comendo, isto é bom, significa que nada lhe faltará; se vê uma serpente, isto é bom, pois haverá abundância; se um homem se vê olhando por uma janela, é favorável, haverá promoção social; se se vê fazendo amor com um gerbo, isto é mau, significa que intentam contra ele na Justiça…” Mas coube ao grego Artemidoro de Héfeso o primeiro compêndio Oneirocritica, datado de 150d.C., composto por 5 Livros, a documentar centenas de sonhos que lhe foram relatados. Com base no que ouviu, e contrariando o pensamento predominante de sua época, Artemidoro concluiu que a simbologia onírica deveria ter um significado antes particular que universal.
A propósito, com a consolidação a partir do séc. V a.C. do culto de Asclépio, seus templos medicinais, espalhados por toda a Grécia, sendo os de Epidauro, Cós e Atenas os mais famosos, previam que seus visitantes enfermos primeiramente se purificassem através de orações, jejuns, exercícios e beberagens, também pelos ritos de incubação, quando se deitavam cobrindo a cabeça com ramos do loureiro, planta sagrada capaz de propiciar-lhes os sonhos por meio dos quais lhes seriam revelados os caminhos para a cura. Esta valorização do mundo onírico encontra berço no orfismo, de onde derivou a corrente filosófica pitagórica, a influenciar mais tarde o platonismo. Cumpre lembrar aqui uma célebre passagem: certa noite, Sócrates sonha com um pássaro magnifíco.
De asas abertas, a ave pousa-lhe no peito e canta maviosamente. No dia seguinte, um jovem interessado em conhecê-lo era-lhe apresentado. Seu nome? Platão, que registrou este relato. Esta milenar idéia de que os sonhos sejam via de comunicação entre os homens e os deuses serve de base a muitas Escolas esotéricas que, inferindo um pouco adiante, advogam a existência de mundos paralelos, aos quais a consciência se transporta enquanto dorme.
A neurociência, entretanto, reduz os sonhos a mero produto de reações bioquímicas desencadeadas por estímulos bioelétricos. Opõem-se a este pensamento as correntes psicológicas e psicoterápicas que enxergam nos sonhos um fenômeno abstrato muito mais complexo e de natureza transcendente ao mundo simplesmente bioquímico. Freud, por exemplo, creditava aos sonhos suma importância. Via em sua ocorrência a prova indireta da existência do Inconsciente. Na “Interpretação dos Sonhos”, 1900, afirma serem os sonhos a “estrada real para o inconsciente”, facilitadora da realização de nossos desejos proibidos centrados na esfera da sexualidade (uma das idéias fulcrais da psicanálise), que se ocultariam por detrás das imagens bizarras e fantásticas do mundo onírico. Jung, transcendendo os limites da psicanálise na qual se iniciou, passaria mais tarde a entender os sonhos como a autêntica linguagem da alma, a expressar o que de modo específico o inconsciente esteja tentando nos dizer.
Na Psicologia Junguiana, a principal função onírica é a de orientar e equilibrar o psiquismo como um todo, aliviando assim nossas neuroses e predispondo a consciência (nosso intelecto) para novas idéias e concepções mais amadurecidas, compensando, destarte, certas deficiências da personalidade, prevenindo-nos até mesmo quanto a certas situações que estejam na iminência de acontecer em nossas vidas. Mas, do que são feitos os sonhos? Não o sabemos. Impossível capturá-los, apreendê-los, estudá-los em nossas mãos, gravá-los em DVD ou ampliá-los pelas lentes de um microscópio.
Procuremos, entretanto, entender de modo mais simples possível o processo que os produz. Mesmo durante o sono mais profundo, o neocórtex, camada de uns 3 mm de espessura que recobre todo o nosso cérebro, mantém-se funcionante, ainda que esteja praticamente isolado dos estímulos proprioceptivos (função que nos permite saber a exata posição de nosso corpo sem que precisemos olhar para ele), bem como dos que são trazidos pelos órgãos dos sentidos.
Mas então, como se promove esta atividade mental latente? Ora, como nas demais áreas de massa cinzenta do cérebro humano, o neocórtex está formado por células nervosas chamadas neurônios. Até as últimas décadas estimava-se existir cerca de 14 bilhões de neurônios processando informações em nosso cérebro. Estudos mais recentes, porém, feitos pelo Dr. Vernon Mountcastle da The Johns Hopkins University, apontam para algo em torno de 50 bilhões de neurônios cerebrais, isto sem levar em conta o número de células nervosas da glia, camada de sustentação do tecido nervoso, que chega a 500 bilhões.
Todo o nosso sistema nervoso central tem massa aproximada de 1.400 gramas, sendo que o cérebro responde por 96% deste peso.

Esse texto é apenas para fins informativos. Para orientação ou diagnóstico, consulte um profissional.

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