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Vinte anos depois, e trilhões de dólares gastos na guerra ao longo das duas décadas, os estadunidenses foram embora e o Talibã voltou ao poder. O que ficou dessa intervenção? O que os Estados Unidos conseguiram alcançar? O legado estadunidense no país e o custo humano de duas décadas de conflito foram temas do podcast da Sputnik Brasil Mundioka desta quarta-feira (28).
Uma das entrevistadas, a doutoranda em relações internacionais pelo Programa San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP-PUC/SP) e professora de relações internacionais na Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (ESAMC) Laís Cavallin lembrou que o Talibã nunca deixou de existir. O grupo apenas recuou para o vizinho Paquistão e zonas rurais do Afeganistão.
Para ela, o grande erro estratégico da intervenção dos EUA foi concentrar os esforços na capital, Cabul, e grandes províncias, ignorando as regiões rurais, que concentram mais de 70% da população.
Além de deixar a infraestrutura do país destruída e uma crise econômica sem precedentes, e miséria, a violência contra as mulheres também foi uma herança nefasta, frisou Cavallin.
Como modus operandi das intervenções, os EUA utilizaram “uma receita pronta de reconstrução” sem considerar especificidades locais. Uma delas foi a imposição às mulheres do país de uma série de programas com visão ocidental, que não tiveram adesão.
Assim que as tropas estadunidenses foram retiradas do Afeganistão, as mulheres foram deixadas à própria sorte sob o domínio dos mesmos que os EUA denominavam terroristas, e perderam todas as conquistas da época da ocupação, cujas frágeis melhorias seguiram uma lógica assistencialista e imperialista, cujo principal objetivo com a intervenção era abrir mercado.
Ela elencou outros legados “malditos”, como o aumento do tráfico de drogas e da violência devido ao empoderamento por parte de Washington da Aliança do Norte, grupo armado opositor ao Talibã, cujas lideranças possuíam histórico de massacres civis, de saques, estupros, e destruição da infraestrutura, principalmente durante a guerra civil dos anos 1990.
Ela conta que também houve tentativa do governo dos EUA de mobilizar mulheres afegãs para serem agentes secretos:
O plano fracassou, acrescentou, porque as mulheres “acharam muita hipocrisia e uma contradição muito grande que aqueles que estavam bombardeando e destruindo suas casas e suas famílias quisessem que elas se aliassem a eles”, declarou, ao relatar ainda abusos, estupros, que foram feitos, inclusive, por parte dos próprios soldados dos EUA, da Organização do tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Também em entrevista para o Mundioka, o professor de relações internacionais da Unilasalle Marcello Freitas explica que o desfecho evidencia os limites da estratégia americana de impor sua influência por meio da força militar e faz parte de um processo mais amplo de declínio relativo da hegemonia de Washington.
Para o pesquisador, os atentados de 11 de setembro marcaram uma mudança na política externa americana, que passou a priorizar uma atuação mais unilateral sob o argumento do combate ao terrorismo. A invasão do Iraque, em 2003, foi um dos exemplos dessa estratégia.
Freitas apontou a corrupção, a fragilidade das instituições e a dificuldade de compreender a complexidade política e social do país como fatores que comprometeram a reconstrução. A retirada americana, em 2021, durante o governo Joe Biden, e o retorno do Talibã ao poder simbolizaram, na avaliação do professor, o fracasso da intervenção.
O pesquisador também chamou a atenção para o custo humano do conflito. Segundo ele, a população afegã enfrenta consequências profundas, especialmente as mulheres e as minorias religiosas, enquanto a instabilidade favorece a atuação de grupos extremistas.
Além dos custos humanos, Freitas questionou os interesses econômicos associados às intervenções militares. Para ele, setores da indústria bélica e empresas contratadas para reconstruir países atingidos pelos conflitos estão entre os beneficiários desse modelo.
O professor destacou a contradição de investir na destruição e, depois, destinar recursos à reconstrução, enquanto as populações locais permanecem expostas à violência e à precariedade.
Para o pesquisador, o caso demonstra que a superioridade militar não é suficiente para garantir influência política duradoura. A experiência afegã expôs os limites de uma estratégia que buscou transformar outro país pela força, mas terminou sem alcançar os objetivos anunciados.
Fonte: Sputnik Brasil.
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