Diálogo entre Trump e Putin evita maiores escaladas, mas aproximação segue limitada, diz analista

A avaliação é do especialista Rodolfo Laterza, pesquisador geopolítico, militar e diretor do Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos (GSEC), ouvido pela Sputnik Brasil.
As declarações de Trump e do Kremlin sobre possíveis medidas relacionadas ao comércio de combustíveis e às relações com a Rússia devem ser interpretadas à luz dos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, comentou Laterza.
Na análise, eventuais autorizações para viabilizar transações comerciais e financeiras envolvendo petróleo e derivados russos poderiam ocorrer por meio de mecanismos legais específicos, sem representar um afrouxamento abrangente das "amplas e multifacetadas" sanções internacionais contra Moscou.
Segundo ele, essas autorizações poderiam viabilizar o transporte marítimo, a contratação de seguros e os sistemas de liquidação de pagamentos para a importação de diesel, mesmo que por períodos curtos. O especialista ressaltou, porém, que esse tipo de medida não significa mudança estrutural no regime de sanções.
Na avaliação do analista, há precedentes de operações que contornam parcialmente as restrições internacionais, como as importações norte-americanas de urânio russo. Ainda assim, uma flexibilização pontual não deve ser confundida com uma revisão ampla das medidas econômicas e financeiras adotadas contra a Rússia.
O especialista também associou as declarações de Trump ao cenário político doméstico, em que a sinalização de medidas relacionadas ao mercado energético busca reduzir a pressão econômica e social sobre o governo estadunidense, em um período politicamente sensível, afirmou.
Segundo Laterza, a crise nas rotas internacionais de transporte de petróleo e gás, como o bloqueio do estreito de Ormuz pelo Irã e o controle efetivo do estreito de Bab el-Mandeb pelo movimento iemenita Ansar Allah, criou um sério choque de oferta e abriu oportunidades para produtores russos.
Apesar do diálogo positivo entre os dois mandatários, a questão ucraniana ainda permanece de difícil resolução. Na visão do analista, o conflito ultrapassou a dimensão de um confronto bilateral e passou a envolver uma disputa de desgaste entre a Rússia e os países da Organização do Tratado do Atlânico Norte (OTAN).
Nesse contexto, uma negociação dependeria, em grande medida, da evolução do conflito no terreno e da capacidade de cada lado de sustentar seus esforços militares e econômicos.
Embora relevante para manter canais de comunicação, a conversa não é suficiente para superar os antagonismos das relações entre Rússia e Estados Unidos, que continuam marcadas por "contradições e desconfiança mútua", na avaliação do pesquisador.
Ele deu como exemplo as sanções econômicas lideradas por Washington e o apoio ocidental a ataques de drones em territórios russos.
Nesse cenário, as conversas têm função mais limitada: preservar canais de comunicação, sondar posições e reduzir o risco de maiores tensões entre as duas nações. Assim, eventuais iniciativas de cooperação no setor energético devem ser compreendidas dentro de um quadro mais amplo de competição geopolítica, interpretou o especialista.

Fonte: Sputnik Brasil.

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