Eleição brasileira e 'midterms' nos EUA devem pesar em acordo tarifário

Os governos do Brasil e dos Estados Unidos decidiram criar um grupo de trabalho para discutir as tarifas aplicadas por Washington sobre produtos brasileiros – a tarifa adicional de 25% em produtos brasileiros e a sobretaxa adicional de 10% ou 12,5% – e outros temas da relação comercial entre os dois países.
O entendimento foi anunciado às vésperas do primeiro turno, após reunião dos ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. Segundo o Mdic, os ministros brasileiros reafirmaram a disposição do governo de buscar soluções por meio do diálogo e da negociação, tendo descrito as conversas iniciais como construtivas.
Recapitulando, Brasil e Estados Unidos travam uma disputa comercial com tons políticos desde meados de 2025. A primeira versão do tarifaço foi atrelada ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro pela trama golpista, enquanto a segunda versão em 2026 abordou o sistema de pagamentos brasileiro, o PIX.
A perspectiva de um acordo antes do segundo turno das eleições seria pouco provável, segundo Juliana Inhasz, devido ao curto período entre a criação do grupo de trabalho e a data de votação, em 25 de outubro. Para a professora e coordenadora do curso de graduação em economia do Insper, o mais viável seria um entendimento parcial, com a retirada da sobretaxa para determinados produtos ou a ampliação de exceções.
"Então, acho que a gente consegue, ao invés de resolver de fato a questão das tarifas, eu acho que a gente consegue, na prática, alguns tipos de regalias", explica. Segundo ela, as negociações também são atravessadas por interesses políticos dos dois lados, incluindo as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
As 21 exigências apresentadas por Washington para avançar nas negociações — que incluem desde preferências comerciais até demandas relacionadas a questões institucionais brasileiras — também devem continuar pesando sobre as tratativas. Para Inhasz, a lista evidencia a amplitude dos interesses estadunidenses, mas não significa que o Brasil necessariamente aceitará as demandas, podendo tornar o processo mais complexo à medida que temas sensíveis sejam colocados à mesa.
No campo econômico, a professora avalia que eventuais concessões, como a abertura de mercados, precisam ser analisadas individualmente, a partir de uma relação de custo-benefício. A abertura de determinados setores ou a retirada de tarifas pode fazer sentido para alguns produtos, mas não necessariamente para outros.
No caso brasileiro, ela cita máquinas e equipamentos, produtos de alta tecnologia e químicos como setores nos quais a redução de tarifas poderia beneficiar a economia doméstica, por serem insumos com pouca produção local. Já nas exportações para os EUA, a retirada da sobretaxa sobre produtos como calçados, móveis e confecções poderia beneficiar empresas brasileiras dependentes do mercado estadunidense
Outro fator apontado por Inhasz é a própria capacidade de negociação do Brasil, já que parte das tarifas é definida no âmbito do Mercosul e, portanto, não pode ser alterada unilateralmente pelo governo brasileiro.
Natali Hoff, professora do curso de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), acrescenta que o resultado do primeiro turno também modificou o cenário político em torno das tratativas. Segundo ela, a maior competitividade observada na disputa presidencial pode levar Washington a aguardar a definição das eleições antes de avançar de forma significativa nas negociações.
Para Hoff, a cautela se explica também pelo potencial uso eleitoral de um eventual acordo. Uma concessão de Washington antes do segundo turno poderia ser apresentada pelo governo Lula como um resultado positivo de sua política externa, enquanto os Estados Unidos teriam interesse em avaliar qual governo comandará o Brasil a partir de 2027.
Na avaliação de Hoff, as 21 exigências continuam relevantes não apenas pelo conteúdo de cada demanda, mas por demonstrarem que o tarifaço envolve interesses que vão além do comércio bilateral. A lista original reunia temas como etanol, produtos químicos, comércio digital, meios de pagamento, minerais críticos, aeronaves e regulação.
A professora espera que parte dessas questões volte à mesa, especialmente temas econômicos e estratégicos como etanol, comércio digital, atuação de empresas de tecnologia, produtos industriais e minerais críticos. Já demandas relacionadas às regras eleitorais, decisões judiciais e outras questões institucionais brasileiras enfrentariam limites para serem incorporadas a uma negociação comercial.
No caso dos minerais críticos, a internacionalista avalia que o Brasil pode negociar o acesso aos recursos, mas deveria buscar contrapartidas capazes de ampliar os ganhos domésticos, como investimentos, pesquisa, processamento em território nacional e transferência de tecnologia. A preocupação, segundo ela, é evitar que o país permaneça restrito à exportação de matéria-prima de baixo valor agregado.
Independentemente do resultado do pleito, a relação comercial com os Estados Unidos a partir de 2027 também deverá ser influenciada pelo desenho das tarifas e pela forma como as negociações com Washington forem conduzidas, segundo Inhasz. Setores estratégicos, como indústria, agronegócio e minerais críticos, podem ganhar espaço nas discussões diante do interesse estadunidense nessas cadeias.
Para a economista, o Brasil também precisa buscar formas de capturar maior valor nas cadeias de minerais críticos e diversificar os destinos de suas exportações. A ampliação de parceiros comerciais, segundo ela, pode reduzir a dependência do mercado estadunidense e ampliar o espaço de negociação de Brasília.
As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, realizadas poucos dias após o segundo turno brasileiro, também devem pesar sobre o ambiente das negociações. Antes das midterms, Trump pode ter interesse em apresentar eventuais acordos comerciais como resultados de sua política, enquanto a composição posterior do Congresso poderá alterar o espaço político para novas tratativas.
Para Inhasz, contudo, o principal efeito das eleições estadunidenses tende a ocorrer sobre as expectativas e pressões políticas, e não necessariamente por meio de mudanças imediatas na política comercial. "As eleições americanas entram no final das contas dentro dessa nossa história muito mais gerando pressões e expectativas do que outra coisa. Muito mais expectativa do que efeito prático".
Hoff acrescenta que um eventual acordo antes do segundo turno também poderia ser incorporado à disputa eleitoral brasileira. Segundo a professora, caso houvesse uma redução significativa das tarifas sem concessões excessivas por parte do Brasil, Lula teria condições de apresentar o resultado como uma vitória diplomática.
Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro poderia tentar atribuir a mudança de postura de Washington ao avanço de sua candidatura e à proximidade política entre o bolsonarismo e o governo Trump.
Porém, o efeito eleitoral dependeria do conteúdo do acordo. Uma negociação acompanhada de concessões consideradas excessivas poderia produzir o efeito contrário e enfraquecer a narrativa de soberania defendida pelo governo brasileiro. Assim, mais do que a existência de um acordo, seriam seus termos que determinariam o espaço para sua apropriação política durante a campanha.
As midterms acrescentam, por sua vez, uma segunda camada de incerteza às negociações. Como ocorrerão poucos dias depois do segundo turno brasileiro, a pressão eleitoral doméstica sobre Trump poderá influenciar tanto o ritmo quanto o conteúdo das tratativas. Segundo Hoff, o cenário pode reduzir o espaço para concessões unilaterais de Washington e aumentar a pressão para que o Brasil assuma compromissos em troca de eventuais avanços.

Fonte: Sputnik Brasil.

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