Bendita a beterraba, que é vermelha e empresta sua cor às melhores saladas. Bendita a cenoura, cuja cor não tem nome - como a cor de laranja ou a cor de abóbora - e é dita amarela, como se fosse. Bendita a mandioquinha, ou batata-baroa, essa sim amarela como o sol em desenho de criança. Bendito o nabo, que é branco ou lilás. Bendito o inhame, que é branco por dentro ou meio cinza, bendito o pepino, verde-claro, e a abobrinha, que tem a casca pintada. Bendita a batata-doce roxa. Bendito o brócolis, quase azul, e bendita a couve, tão verde. E o feijão-preto, que é preto, e o mulatinho, marrom, e o grão-de-bico, que é bege. Benditas as frutas, fazendo arco-íris na fruteira e perfumando o ambiente. Benditas todas as cores que podemos ver e comer.
Há muitas maneiras de arrumar um prato para que fique nutritivo, mas nenhuma supera a que já dá prazer só de olhar. Se as cores combinam, os alimentos combinam. E, quanto mais colorida for a mistura, mais rica será a comida.
Nutrientes coloridos
Para começar, pelo fato de que todas as cores vivas - amarelos, alaranjados, vermelhos e verdes-escuros - têm betacaroteno e outros carotenóide , que dentro do corpo se transformam em vitamina A. E falar dela é falar de pele, olhos, ossos, dentes, membranas mucosas, células nervosas e sangüíneas, sistema imunológico, potência sexual, glândulas tireóide e adrenais, das quais depende grande parte do funcionamento harmônico do organismo.
Basta uma cenoura crua, de mais ou menos 70 g, para fornecer o dobro do betacaroteno de que precisamos diariamente. Que tal? E o que sobrar não se perde porque os carotenóides são poderosos antioxidantes: protegem as células e neutralizam a ação de radicais livres, o que retarda o envelhecimento. Outra vantagem da comida colorida é que, como diz a médica nutróloga brasiliense Clara Brandão, da variedade nasce a qualidade. Isso acontece porque muitos dos nutrientes importantes trabalham em conjunto, mas nem sempre estão disponíveis no mesmo alimento. Por exemplo, feijão e arroz: ambos têm aminoácidos complementares, o que aumenta em 2% o conteúdo de proteínas se estiverem juntos, minerais como cálcio, magnésio, fósforo, manganês, zinco, vitaminas do complexo B e vários outros micronutrientes se beneficiam das associações.
A medicina tradicional chinesa é mais específica ainda: as cores dos alimentos têm destino e função. Amarelos vão fazer bem ao estômago, ao baço e ao pâncreas, reforçando nosso centro e a capacidade de reflexão e de compaixão. Regularizam os ciclos - de dormir, de comer, de menstruar.
Verdes estimulam o fígado e a vesícula, a habilidade de planejar, a visão, a criatividade e a paciência. Desintoxicam e ajudam a eliminar resíduos. São bons para músculos e para articulações.
Vermelhos favorecem coração e intestino delgado, levando a uma melhor discriminação de valores e sentimentos, aumentando o calor humano, a capacidade de comunicação, a facilidade de rir.
Brancos, cinza-claro e bege fazem bem aos pulmões e ao intestino grosso, reforçando a vitalidade através de dois processos essenciais à vida: o de respirar, no nível mais sutil, e o de eliminar sobras, no nível mais denso. Asseguram a ordenação e o ritmo.
Marrons, pretos e outros tons escuros ativam os rins e a bexiga, que cuidam do equilíbrio de água no organismo e da própria energia que nos leva adiante. Sustentam em nós os ossos, a medula, o cérebro, a coragem, a ambição, a capacidade reprodutiva e também desintoxicam.
Salada de primavera
Dica de primavera para quem quer colocar tudo isso em prática: escove bem (sem descascar) um pouco de beterraba, cenoura, abóbora-japonesa, abobrinha, aipo (salsão), nabo, rabanete e funcho, depois descasque uma cebola, um dente de alho e um inhame. Rale tudo na parte do ralador que forma fios, misture e tempere com azeite, limão, sal e erva-doce. Junte umas folhas verdes. Aqui em casa se chama "salada de tudo" e faz o maior sucesso.




