Focinho de uma, leite da outra

Que fique claro: ninguém vai discutir que todo bebê deveria mamar exclusivamente no peito da mãe pelo menos até os 4 meses – e só
se não for possível estender esse período até os 6. Mas quando a mulher volta ao trabalho, não consegue amamentar por algum motivo ou, ainda, a criança já tem fome de um leãozinho que chegou firme e forte aos 7 meses, não tem jeito: é a vez da mamadeira. A questão é o que entra nela. O certo, nessa fase, se¬riam as fórmulas infantis. Acredite: a sugestão não é exagero dos pediatras nem golpe da indústria alimentícia.

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O leite da vaca é realmente muito diferente do humano – afinal, as necessidades do bezerro também são diferentes das do bebê. A rigor, não deveria entrar na dieta antes de o pequeno completar 12 meses. Só para se ter uma idéia, esse leite tem menos ferro e ácido linoléico essencial para a formação do sistema nervoso – e é paupérrimo em vitaminas essenciais nessa idade. Pior, no entanto, não é o que falta, mas o que tem de sobra sódio, potássio e fósforo.

Fora o desequihôrio de nutrientes, há o risco de alergia às proteínas estranhas. O intestino do be¬bê,ainda imaturo, pode deixar passar algumas dessas moléculas, que logo chamam a atenção do sistema imunológico. O resultado é uma reação capaz de provocar transtornos que vão desde uma dermatite até asma.

Daí que as sociedades americana e brasileira de Pediatria têm motivos à beça para recomendar o uso das formulações. Elas são, sim, feitas a partir do leite de vaca. Este, porém, sofre mudanças para ficar, digamos, mais parecido com o leite da mamãe humana. O excesso de mi-nerais é eliminado, entram gorduras boas e ferro e aquelas proteínas indigestas são transformadas em tipos mais palatáveis.

Os 12 meses iniciais de vida são uma verdadeira explosão de crescimento. Basta lembrar que ao completar o primeiro aniversário a criança praticamente triplicou o peso que tinha ao nascer e esticou uns 25 centímetros. "É o período em que ela mais cresce", lembra o médico Ary Lopes Cardoso, do departamento de nutrição da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Já o sistema nervoso, ao longo desse ano, ganha milhões de células e suas terminações se recobrem de mielina – espéàe de capa gordurosa que reveste os neurônios. O sistema digestivo amadurece, assim como o imunológico. Ao final, o intestino fica pronto para filtrar as proteínas estranhas e elas deixam de ser uma terrível ameaça. A fase de cuidados mais rigorosos, enfim, vai ficando para trás. E o leite de vaca pode receber o sinal verde.

Se o risco de alergia é menor quanto mais tarde a criança deixou para experimentá-lo, passado o primeiro aniversário, a situação praticamente se inverte. A partir daí o organismo vai precisar de boas doses desse alimento e dos seus derivados para garantir o cálcio de cada dia. Quando a criança, ar de grandinha, ainda briga com a proteína da vaca, uma alternativa são as fórmulas à base de soja. Mas atenção: tem muita gente que ainda confunde alergia com intolerância. Não digerir bem um alimento (e ficar com aquela sensação de estômago pesado) não significa alergia. Isso quer dizer apenas que o organismo não tolera determinado componente. Ou, como se diz popularmente, que algo não lhe cai bem.

De olho na anemia

A alergia é um quadro mais grave. Quando ela ocorre, há produção dos anticorpos IgE, que ativam as células de defesa e podem levar a complicações mais sérias. O pediatra costuma levantar essa lebre somente se o pequeno sofre com freqüência de diarréia, vômitos, cólicas, dermatites e problemas respiratórios. Dificilmente quem não tomou leite de vaca antes de 1 ano saberá o que é isso.

Nessa idade, os médicos também ficam de olho na ameaça da anemia. O ferro é um mineral que costuma dar trabalho para atingir sua cota na criançada pequena. "O índice de meninos anêmicos chega a 70% na faixa até os 2 anosn, lamenta o pediatra Fábio Ancona Lopez, da disciplina de Nutrição e Metabolismo da Universidade Federal de São Paulo. A discussão é se os leites encontrados no mercado poderiam se tornar aliados. Muitas marcas vêm enriquecidas com ferro. Há quem diga que mais vale apostar no feijão e no bife, fontes mais expressivas e que a garotada dessa idade já consegue mastigar. Outros, porém, vêem com bons olhos a adição do mineral no leite de vaca, já que é um reforço às doses diárias. Converse com o pediatra antes de encher o copo do seu filho.

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