Cansada, ansiosa, irritada… Se você anda se sentindo assim, alto lá: esses sintomas não necessariamente são consequência do stress e da rotina agitada. Pode ser sinal de desequilíbrio na tireoide – mal que atinge de cinco a dez vezes mais mulheres do que homens. A boa notícia: o que você come pode ajudá-la a ficar longe dessa estatística. A secretária Regina Marques, de 23 anos, levou quase um ano para descobrir o que estava acontecendo com sua energia. Não tinha disposição para nada, dormia sentada em frente à tevê… Pudera: acordava antes das 7, trabalhava até quase 7 da noite, dali seguia para o curso de letras. E, quando chegava em casa, precisava dar cabo dos trabalhos da faculdade antes de pregar os olhos. Quem não ficaria podre de cansada?
Não passou pela cabeça dela procurar um médico até que, seis meses mais tarde, ganhou peso de uma hora para a outra. Ela não se alimentava bem, às vezes, almoçava coxinha e jantava pão de queijo. Mas isso não era motivo para engordar 10 quilos em três meses. O sobrepeso foi a gota d”água e a salvação, Regina marcou uma consulta e, com um exame de sangue, descobriu um desequilíbrio no funcionamento da tiroide.
Essa glândula com formato semelhante ao de borboleta, localizada na parte anterior do pescoço, é uma das maiores do nosso corpo, embora meça cerca de 5 centímetros e pese 20 gramas. Como uma maestrina, rege o funcionamento do organismo. Isso porque produz hormônios, sendo os principais o T3 (triiodotironina) e o T4 (tiroxina), que são levados pela corrente sanguínea a fim de regular o metabolismo e assegurar que órgãos vitais, como coração, fígado, rins e ovários, trabalhem de maneira eficaz. Preocupada, Regina se perguntou: por que eu?
Mulheres: principal alvo – Você tem uma amiga, prima ou vizinha que, como a Regina, passou pelo mesmo transtorno? Coincidência explicada: alterações na glândula atingem de cinco a dez vezes mais mulheres do que homens. “Alguns genes que induzem o desenvolvimento de doenças da tiroide são ligados ao cromossomo X, feminino”, explica o endocrinologista Geraldo Medeiros Neto, presidente do Instituto da Tiroide (Embater).
Além disso, a maior parte desses males é autoimune, outro problema tipicamente nosso. “É como se o organismo produzisse uma reação de defesa quando um agente externo ataca. Só que, nesse caso, é contra a própria tiroide” , acrescenta Rosita Fontes, endocrinologista do Lavoisier Medicina Diagnóstica e do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede-RJ).A predisposição genética é a principal causa desse desequilíbrio, desencadeado após situações de grande stress físico ou psíquico. “Ele desregula o sistema de defesa do organismo, que passa a agredir os órgãos e tecidos.
Quanto à tiroide, pode funcionar de mais ou de menos”, continua. Ela conta que, por apresentar sintomas sutis, às vezes é difícil diagnosticar quando a glândula precisa de tratamento, como ocorreu com Regina. Entre os possíveis problemas envolvendo a tiroide, o hipotireoidismo é o mais frequente, afetando 5% da população feminina. Menos hormônios tireoidianos, organismo lento… Instalam-se desânimo, sonolência, sensação de frio, cãibra, inchaço, anemia, colesterol alto, queda de cabelo, unhas fracas, pele seca, prisão de ventre, alterações menstruais, ganho de peso e dificuldade para engravidar. Para tratar, é preciso tomar comprimidos do hormônio que não vem sendo produzido em quantidade suficiente. Os incômodos desaparecem em algumas semanas, mas é necessário fazer exames periodicamente. Já o hipertireoidismo, menos comum, atinge 2% das mulheres que sofre com o aumento da produção hormonal. O metabolismo, então, fica acelerado. Além de comer muito e não engordar, meus olhos ficaram irritados e avermelhados”, lembra Silvia Souza, de 36 anos. “Perdi a conta de quantos oftalmologistas consultei e dos colírios que comprei. Só depois de ver oito médicos é que recebi o diagnóstico correto.
Outros sintomas são nervosismo, palpitação, insônia, tremores nas mãos, suor excessivo, aumento do apetite, perda de peso, olhos saltados, alterações menstruais e, de novo, dificuldade para engravidar. O tratamento também é feito com medicamentos tomados diariamente com o iodo radioativo, que destrói uma parcela da glândula ou com cirurgia para remover parte da tiroide. O terceiro possível problema é o bócio, caracterizado pelo aumento da tiroide. Pode ser classificado como difuso (aumento de toda a glândula) ou nodular (presença de um ou mais nódulos) e causar falta de ar e dificuldade para engolir. É combatido com hormônios e, em alguns casos, exige cirurgia. Embora o risco desses desequilíbrios seja maior a partir de 35 anos, eles podem surgir em qualquer idade. A boa notícia é que, em todos os casos, as chances de cura são altas, desde que o diagnóstico seja feito precocemente. E um exame de sangue é suficiente para deixar a situação às claras: ele mede a taxa de TSH (hormônio estimulador da tiroide) e os níveis de T3 e T4. E quanto à formação dos temidos nódulos? Surgem em de 4 a 7% das mulheres, sendo 14% malignos, de acordo com o Instituto da Tiroide. Para neutralizar o câncer, é necessário remover parcial ou completamente a glândula e ainda, em alguns casos, recorrer a sessões de quimioterapia ou radioterapia. Além disso, a paciente precisará tomar hormônios pelo resto da vida. Prevenção no prato Para ficar longe das estatísticas acima, a alimentação é uma grande aliada. Segundo o cardiologista e médico ortomolecular Marcos Antônio Natividade, há três nutrientes essenciais ao bom funcionamento dessa glândula: iodo, selênio e aminoácidos (taurina e tirosina). Onde encontrar?
“O primeiro está presente nos frutos do mar (vale tanto ingerir peixes como algas) e no agrião (desde que tenha sido plantado em áreas próximas ao oceano). Já a castanha-do-pará é rica no segundo mineral, também contido em brócolis, arroz integral e frutos do mar. Como os aminoácidos são marca registrada de itens proteicos, a boa pedida é apostar em carnes brancas e grãos como soja. “Além de caprichar na alimentação, também é importante fazer o auto-exame ao menos uma vez por ano para detectar algum nódulo quanto antes. Lembre-se: descoberto no início, fica mais fácil de tratar.
Em frente a um espelho, apalpe a região abaixo do pomo-de-adão, também conhecido como gogó. Daí, incline a cabeça para trás, como se fosse olhar para o teto, mas de forma a ver o reflexo do pescoço. Ao tomar um gole de água, vai notar que a tiroide sobe e desce. Observe se existe alguma saliência enquanto repete o processo várias vezes. Se existir, procure um endocrinologista sem se alarmar (como explicamos, na maior parte dos casos, os nódulos são benignos e não há necessidade de removê-los). “No entanto, é preciso acompanhar sua evolução, pois podem vir a comprimir outras estruturas do pescoço, levando a falta de ar, dificuldade para engolir e tosse seca”, observa a Dra. Rosita. A partir dos 35 anos, toda mulher deve fazer exames de sangue específicos a cada cinco anos. “Se há histórico familiar de doença tireoidiana, o médico poderá indicar intervalos menores, mesmo antes dessa idade”, alerta a especialista. Além do teste que mede as taxas hormonais, os especialistas recomendam checar a dosagem de anticorpos que agem contra a glândula e realizar ultra-sonografia local para verificar nódulos e tumores. Pode ser preciso teste com iodo radioativo, no caso de hipertireoidismo. Com esses cuidados, essa maestrina chamada tiroide jamais vai perder o tom. Atenção, futuras mamães” Os hormônios da tiroide são muito importantes durante a gestação”, avisa a Dra. Rosita. No entanto, nesse período e no pós-parto, as mulheres ficam mais propensas às disfunções na glândula. A tireoidite atinge de 5 a 10% das novas mães e pode aparecer sob a forma de hipotireoidismo ou hipertireoidismo, logo nos primeiros meses depois do nascimento do bebê. Importante: muitas vezes é confundida com depressão pós-parto por causa dos sintomas. Em alguns casos, evolui para hipotireoidismo definitivo. Outro perigo é quando a criança nasce com hipotireoidismo, que pode acabar comprometendo o QI da criança. “Se não for tratado no ato, pode causar alterações permanentes, como retardamento mental, mesmo se os medicamentos forem introduzidos mais tarde”, esclarece a Dra. Rosita. Vilã das dietas. Será? É merecida a fama que a tiroide tem de sabotar qualquer regime, não importando se chegar ao extremo de fazer greve de fome. Isso porque o hipotireoidismo dificulta o processamento das calorias, resultando em aumento de peso. “Sempre fui uma criança gordinha, mas só comecei a desconfiar que tivesse o distúrbio quando segui uma dieta radical, passava fome, e nada de o ponteiro da balança baixar”, conta a engenheira Renata Valença, de 33 anos. Mas compare: você já sabe que apenas 5% das mulheres sofrem de hipotireoidismo, enquanto 40% estão acima do peso. Então, não dá para culpar a tiroide pelos quilos extras antes de verificar a presença de outros sintomas. É bem provável que a acusação seja só uma forma de se desculpar por sucumbir às gulodices.

Esse texto é apenas para fins informativos. Para orientação ou diagnóstico, consulte um profissional.

By luizccm

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