Tem perigo na boca

Você volta do dentista com a sensação de dever cumprido: não tem cáries e a gengiva esbanja saúde. Infelizmente, há casos em que as aparências enganam. E, lá no fundo da gengiva, bem no fundo mesmo, pode estar em franco progresso um processo inflamatório que ainda vai causar um estrago daqueles. O pior é que nem dor há para disparar o alarme. Tampouco ocorre sangramento, costumeiro sintoma de encrenca. A erosão em curso, capaz de provocar a perda do dente, só é desmascarada mesmo por meio de raio X da arcada. Isso quando o dentista solicita o exame numa consulta rotineira, o que nem sempre acontece.

É difícil saber com absoluta certeza o que detona o problema. Uma forte pancada no rosto pode ser a culpada, mas há outras possíveis causas, como o (mau) hábito de ranger os dentes, a presença de um siso incluso ou, quem sabe, uma lesão provocada por um aparelho apertado demais. "Isso tudo pode provocar uma inflamação e desencadear a reabsorção da estrutura de suporte do dente", explica o cirurgião-dentista Habib Assad Nader, de Ribeirão Preto, no interior paulista.

A corrosão começa em torno da raiz, avança para a sua base e cresce até atingir o centro do dente. O processo contrário – de dentro para fora – também acontece, mas, nesse caso, a reabsorção é induzida por um canal malfeito. Como não faz alarde, a demolição, lenta e implacável, segue em frente até provocar a queda do dente. Pode levar anos. O problema é que a destruição só fica evidente nas imagens do raio X quando está grande demais. Daí o esforço de pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), ligada à Universidade de São Paulo, para desenvolver um exame de laboratório, muito mais preciso do que as imagens radiográficas. Demorou cinco anos, mas deu certo. "Basta uma gota de sangue, saliva ou lágrima", revela Alberto Consolaro, professor da FOB e criador da nova técnica. Funciona assim: um reagente detecta na amostra anticorpos que são liberados quando começa o processo inflamatório e a reabsorção propriamente dita. 

"A vantagem de identificar a reabsorção precocemente é que crescem as chances de salvar o dente", acredita a endodontista Flávia Ehar, de São Paulo. Daí, o tratamento consiste em limpar toda a região afetada e fazer curativos periódicos com hidróxido de cálcio para brecar o autocanibalismo. Em alguns meses consegue-se parar o processo e o dente é fechado – são e salvo. No entanto, se mais de metade da raiz foi afetada, a única saída é remover o dente, bem como os tecidos contaminados, e partir para um implante. Além dos cuidados rotineiros com a higiene, só há um meio de evitar toda essa chateação: pedir ao seu dentista que cheque a arcada dentária inteira, em profundidade.
 

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