Religião verdadeira
Sendo o homem a própria Vida, em todo lugar em que ele vive existe Vida em abundância. A mente humana está sempre vibrando. A Vida se move constantemente e jamais estaciona. Esse movimento, porém, não é cego e desordenado como o dos cavalos que puxam uma carroça. É um movimento silencioso e tranqüilo. O mundo da Vida é ao mesmo tempo quietação e movimento, semelhante ao interior de uma aeronave que voa na estratosfera. Desde a Antigüidade, as pessoas procuram chegar a esse estado espiritual por meio de concentração mental, meditação zen, oração ou outras práticas.
Diz-se que a religião verdadeira é a da ação, mas uma ação sublimada, de quem é capaz de se sentar em silêncio e contemplar a Imagem Verdadeira, mantendo em seu interior um entusiasmo semelhante ao do Sol, que brilha resplandecentemente. É bom ter um entusiasmo que clama "Vamos à ação, com coragem e decisão!", mas, se isso terminar em simples entusiasmo, acabará arrefecendo qual fogo de palha. Diz-se o mesmo em relação à luz. Diz-se genericamente luz, mas há aquela que tem um brilho dourado profundo e outra que tem um brilho apenas superficial como o de um metal banhado a ouro. A luz a que nos referimos é aquela que brilha do fundo da alma, o entusiasmo que jamais se apaga.
A luz que brilha do fundo da alma
Às vezes, denominamos esse entusiasmo sereno wabi ou sabi. Não devemos abandonar esse padrão de beleza tradicional e perseguir debalde a cultura semelhante a um metal banhado a ouro. O conceito de wabi e sabi foi degenerado por insensatos apreciadores de antigüidades como simples referência à arte do bonsai (árvores anãs). A sala Ura no Tomaya, de Jo, que ensinou os segredos da cerimônia do chá para Rikyu, era uma sala delicada, imaculada e iluminada.
Não era tão iluminada quanto uma sala envidraçada, mas não devemos nos esquecer que lá havia uma luz serena que mais parecia estar brilhando do fundo da alma.
O homem não deve impor a si pequenos limites. Deve manter em grau máximo a suprema conscientização de que é filho de Deus. Sendo Deus infinitamente grandioso, absorve tudo e ainda deixa margem para uma infinidade de coisas. Se alguém se sente injuriado só porque outrem lhe disse uma insignificante ofensa, não podemos chamá-lo de filho de Deus. Para podermos ser livres, devemos primeiramente deixar o outro totalmente livre. Jovens, vamos, antes de tudo, aprender a dar total liberdade ao outro.
Entusiasmo e amor serenos
O mundo fenomênico está em constante transformação. É difícil saber se as pessoas estão amando a paz ou dando preferência à luta. Evidentemente, o consciente superficial busca a paz, mas o subconsciente está preenchido de sentimentos de luta, de desejo de subjugar livremente o outro. Assim, surgiram estranhas expressões como frente para a paz e luta pela paz. Se nos preenchermos, do fundo da alma, de luz e entusiasmo serenos, aqui haverá só a paz. Não a paz do mundo fenomênico, mas a paz verdadeira que se encontra nas profundezas da alma. Não a paz do corpo carnal, mas a do Espírito.
Jesus Cristo disse: "Buscai pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo". Aquele que se prende aos acontecimentos fenomênicos continuará vivendo para sempre num mundo conturbado. Conta-se que Sakyamuni dominou por três vezes o exército do país inimigo através da meditação, mas, na quarta vez, deixou-o avançar. Fez isso porque ele compreendeu que essa era a providência misericordiosa de Deus para com a sua pátria.
Entretanto, não estamos buscando uma simples paz e felicidade conceitual. O de que necessitamos não é a sensação de felicidade obtida por quem está entorpecido pelo ópio. É de uma felicidade mais concreta e palpitante. Não é de uma ilusão que existe no mundo do pensamento, mas algo verdadeiro e inabalável. Sim, a paz existe de fato. Expressamos a felicidade que já existe verdadeiramente. Expressar é manifestar em vibrações. Em outras palavras, é ação. A paz só vem por meio da ação. E essa ação consiste em realizar o amor. Quando cada gesto, cada passo dos leitores se tornarem personificação do amor, verão objetivamente que a paz se realizou.
Cuidando de hóspedes
Na revista Weekly Unity consta o seguinte caso narrado pela sra. Zelia M. Walters.
No mais profundo desespero, a sra. Margot Winlow procurou o dr. Houston. Ela perdera o pai em acidente de trânsito havia seis meses. Além disso, seu único irmão fora à Europa como soldado e morrera em combate. Seu namorado estava desaparecido durante a Grande Guerra no Pacífico, mas, ao terminar a guerra, ela recebeu a notícia de que ele morrera na prisão do Japão. Ela perdeu totalmente a esperança na vida e passou a negar a existência de Deus. Resumindo, ela passou a amaldiçoar a vida. O dr. Houston deu-lhe muitos conselhos, mas foram todos em vão. Seu coração estava inflexivelmente fechado como uma ostra, e ela não dava ouvidos a nenhum conselho. O dr. Houston, porém, conseguiu convencê-la a colocar em prática uma coisa. Ou seja, trabalhar, o que, em outras palavras, seria realizar um trabalho de dedicação ao próximo.
Margot foi então a um hospital e levou para casa uma garota pobre que, mesmo recebendo alta, não poderia trabalhar até restabelecer-se totalmente. Não tinha nenhum parente na cidade nem dinheiro para voltar para sua terra, a 1.000 milhas dali. Margot encarregou-se de cuidar dela até que se restabelecesse, mas com relutância. Pretendia apenas distrair-se para esquecer um pouco as tristezas.
Levaram a garota doente, Lecy Car, para a casa de Margot, onde,foi recuperando a saúde a olhos vistos. Nesse ínterim, Margot sentiu que os sofrimentos de até então estavam se dissipando pouco a pouco. Lecy, porém, mostrava-se preocupada à medida que ia se restabelecendo. Margot disse a ela: "Pode ficar em casa até se recuperar completamente". Então, no dia seguinte, ela já se levantou e, no segundo dia, desceu para o andar inferior e disse a Margot: "Deixe-me ajudar em algo". Desse modo, em uma semana, ela já estava disposta e, em um mês, conseguiu um emprego em que lhe pagariam um salário maior do que o que recebia anteriormente.
Ao dar amparo a essa garota doente, Margot compreendeu que dera a ela algo muito, muito mais valioso que o de cuidar da saúde dela. Pegou novamente a Bíblia e leu as palavras de Jesus Cristo. Soube, assim, que nelas estavam ocultas preciosas Verdades que não conseguira descobrir até então. Ela voltou ao hospital à procura de uma outra pessoa para amparar.
Essa outra pessoa foi uma jovem mãe com dois filhos pequenos. Felizmente, a prima em segundo grau que cuidava dos afazeres domésticos para Margot gostava muito de crianças, e não houve nenhum problema. Ela colaborou de bom grado nesse trabalho desempenhado por Margot e, graças a isso, conseguiu manter um relacionamento muito amistoso com esta prima, antes um tanto frio. A sra. Ornie e seus dois filhos se restabeleceram e voltaram para a casa deles.
Outro hóspede dela foi um jovem soldado que, após passar por muitos sofrimentos na Grande Guerra no Pacífico, tentara suicídio e estava hospitalizado. Ele também recuperou totalmente a saúde mental e física ao permanecer um mês na casa de Margot. Posteriormente, passou a visitá-la todas as tardes de domingo para bater papo.
Numa segunda-feira, ela levou para sua casa um menino de 13 anos. Ele fora criado por um casal de tios, mas eles estavam convencidos de que esse menino tinha inteligência fraca e não servia para nada. Mas Margot descobriu, ao cuidar dele, que no seu interior estava oculto um extraordinário talento, e que era um menino gentil e sensível.
Margot decidiu continuar recebendo hóspedes em sua casa. Hoje, já não consegue deixar de fazer isso. Ela conheceu a alegria de servir ao próximo. Isso faz parte da obra de Deus, e ela tem a alegria de participar dessa obra dEle e não consegue mais deixar de realizar essa tarefa. Sem se dar conta, ela havia superado totalmente o desespero e a desilusão que a faziam amaldiçoar a vida.
De onde vem a felicidade
Mesmo um sentimento negativo que a razão não consegue controlar é infalivelmente superado por meio de atitudes altruístas. Vemos tais exemplos em todos os lugares do mundo, e isso demonstra que a ação é Vida. Nesse caso, a ação é aquela que engloba toda a vida cotidiana. Felicidade é semelhante a um líquido que flui das ações. Uma ação pode inicialmente não vir acompanhada de qualquer entusiasmo, mas, à medida que a forem realizando, nascerá gradualmente o entusiasmo. Isso se assemelha ao calor da terra cuja temperatura aumenta quanto mais cavar o solo. Logo esse calor da terra jorrará em forma de lava incandescente.
Não devemos negligenciar os treinamentos diários. Assim como não se consegue aprimorar a capacidade estudando apenas uma noite para enfrentar uma prova, se na hora decisiva não nascer o entusiasmo na vida nem sentir felicidade, não adiantará transferir a outrem a responsabilidade disso ou culpar a época. Da mesma forma que a oração é acúmulo dos pensamentos de cada momento da nossa vida, o acúmulo das ações de toda a nossa vida é registrado como nossa conduta. Tomonoshin Takayasu, ator de teatro, disse: "A estréia não é importante. Importantes são os ensaios diários. Deve-se empenhar a alma durante os ensaios, aprender bem e, na estréia, esquecer tudo".
O segredo de quem se torna um mestre é empenhar-se seriamente no dia-a-dia e, na estréia, esquecer-se de tudo, ou seja, entregar-se totalmente a Deus. O entusiasmo se apazigua quando, no último nível, entrega-se totalmente a Deus. Nesse momento, pela primeira vez, o entusiasmo irradia verdadeiramente a originária luz infinita da Vida.
