O dramaturgo alemão Bertolt Brecht disse certa vez que "infeliz é a nação que busca por heróis". Segundo seu raciocínio, poderíamos dizer que todas as nações são infelizes. Todos nós buscamos aquele ser excepcional, capaz de realizar façanhas impossíveis, no qual possamos nos espelhar. Faz parte da natureza humana. Embora as qualidades atribuídas aos heróis e os feitos que deles esperamos mudem conforme a cultura e a época, eles sempre facinaram e facinarão a humanidade, como nos mostra a jornalista inglesa Lucy Hunghes-Hallett no livro Heróis – Sauvadores, traidores e super-homens, publicado no Brasil pela Record.
A autora explora as características do herói, ilustrando-as por meio de seis figuras históricas famosas e dois personagens da mitologia. Segundo ela, o livro é "uma coleção de histórias extraordinárias" que poderíamos chamar de "minibiografias" Aquiles, Alcebíades, Catão, El Cid, Francis Drake, Wallenstein e Garibaldi são os heróis que a autora intercala com breves comentários sobre o Ulisses da mitologia e aqueles que tanto fascinou escritor irlandês James Joyce.
Na descrição da vida e dos feitos desses personagens (à primeira vista tão díspares), a autura procura dar respostas – que ela chama de "caleidoscópicas" – a questóes sobre a criação de um herói, os fatos e as lendas que surgem sobre sua vida e sua função para a sociedade. Demonstrando grande conhecimento sobre cada um dos personagens, contextualizando o espírito da época na qual cada um deles viveu e com muito talento para contar histórias, Hughes-Hallett explora diferentes aspectos do arquétipo do herói.
Mas que características fariam de um homem comum em herói? Apesar de inicialmente destemido e relutante, o herói não hesita em enfrentar qualquer desafio. Dinâmicos e sedutores, heróis representam modelos que nos inspiram. Têm sua imagem associada à coragem e à integridade, embora muitas vezes sejam também rebeldes, insubordinados e até traidores.
Quem é considerado herói nos passa confiança, projeta uma imagem de grandiosidade, exerce sobre nós uma atração inebriante. Muitas vezes não possui talentos excepicionais além do fato de ser a pessoa certa na hora da necessidade. Entretanto, uma vez tocado pelo sopro de heroísmo, deixa de ser uma pessoa comum e passa a ser cercado por lendas. Ele é único e inimitável.
Um herói é muitas vezes belo – já que a dimensão erótica também faz parte desse arquétipo -, sempre tem uma presença imponente, que se destaca, e é capaz de seduzir ou intimidar. Segundo Hugles-Hallett, são variadas as maneiras pelas quais essas figuras nos atraem: Heróis podem significar desafios ou consolo, podem oferecer a euforia da vitória ou o prazer infantilizante de ser cuidado por um protetor superhumano. Podem consistir modelos de coragem e integridade, ou representar exemplos sedutores de transgressão e abuso de liberdade. Porém, uma característica é constante: todos oferecem maneiras de pensar sobre a morte". De fato, características fundamentais do arquétipo do herói é sua relação com a morte. O herói é alguém que quer "fazer a diferença", ele se expõe a perigos fatais na busca pela imortalidade, alcançando-a na nossa memória.
Encontramos exemplos heróicos no mundo contemporâneo e neles projetamos a imagem do herói que existe em cada um de nós. São pessoas que se destacam nos esportes, estrelas da música e da televisão, modelos, políticos ou líderes religiosos. Esses indivíduos são detentores da esperança de uma nação, do sonho de se destacar, de fazer a diferença, de não ser insignificante e de alcançar a imortalidade. São pessoas em cujo carisma todo um povo pode se espelhar, para sentir orgulho de sua nacionalidade.
Um exemplo recente na história do Brasil é Ayrton Senna. Não é difício lembrar o quanto ele acendeu nos corações da nação o orgulho de ser brasleiro e o quanto cada uma de suas vitórias foi sentida como de todos nós. O herói tem esse poder de encantamento. Também não nos esqueceremos tão cedo do encanto desperdado pela princesa Diana, que com seu carisma fez com que tantos torcessem por ela. Mas, geralmente, o herói morre cedo e de maneira trágica, o que infelismente aconteceu com os dois.
Somos também individualmente tocados pelo arquétipo do herói em muitos momentos de nossa vida. Com suas características de bravura, coragem e audácia, ele nos ajuda a enfrentar as dificuladades, mesmo as mais cotidianas. Não é por razão que a expressão "matar um leão por dia" se tornou tão corriqueira. Vencer a batalha pela sobrevivência, especialmente para nós, brasileiros, exige um reconhecimento de nosso herói interior e o exercício contínuo para mantê-lo diariamente desperto.
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