Pense na última vez em que você esteve num barzinho. Tente se lembrar de quantas mulheres você viu batendo papo com um copo de uísque, de vodca ou de vinho na mão. Apesar do clima descontraído de happy hour, é nesses grupos que está parte das vítimas mais recentes do alcoolismo, doença progressiva e fatal que atinge uma em cada dez pessoas que consomem álcool, segundo a Organização Mundial da Saúde. No Brasil, estima-se que sejam 12 milhões. As novas alcoólatras ainda não aparecem nas estatísticas, mas começam a chegar às clínicas e aos consultórios.
São profissionais bem-sucedidas, que se iniciam na bebida com os colegas da empresa na tentativa de driblar o estresse depois de um dia de trabalho duro. Já não enfrentam o preconceito que as mulheres encaravam tempos atrás quando eram vistas bebendo, mesmo socialmente. Pelo contrário: o programa de fim de tarde com a turma do trabalho lhes confere um certo atestado de igualdade. “A geração anterior de mulheres bebia em casa com o marido ou namorado”, nota a psicóloga, coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química. “A atual bebe abertamente”.
Essas mulheres fazem parte de um mercado cada vez mais competitivo e são submetidas a pressões que antes eram exclusivas dos homens. No álcool, encontram uma forma de afastar o medo do fracasso. Duas novatas a cada dia – O alcoolismo ataca homens e mulheres de todas as camadas socioeconômicas. As estatísticas são poucas, mas alguns fatos anunciam um crescimento do número de mulheres alcoólatras. Tradicionalmente, existem dois grandes grupos de mulheres dependentes de álcool e, hoje, são eles que se fazem representar em massa nos programas de ajuda disponíveis. O primeiro se inicia na bebida jovem, para vencer a timidez e conquistar a simpatia dos amigos. O segundo começa mais tarde e reúne mulheres com mais de 40 anos, casadas ou separadas, que se descobrem sozinhas e sem objetivo de vida depois que os filhos saem de casa ou se deparam com uma grande frustração. “De uma forma ou de outra, na mulher a dependência do álcool está associada à auto-estima e às relações afetivas”, observa a psiquiatra. Líquido mágico – O álcool é cruel com homens e mulheres, mas pesa mais para o sexo feminino. “Por medo do preconceito, elas demoram mais a procurar ajuda e, quando o fazem, chegam em estado mais grave”, descreve o psiquiatra. “Organicamente, não toleram o álcool tão bem quanto os homens e desenvolvem mais cirrose. Além disso, tornam-se dependentes mais depressa”, avalia ele. Nunca ficou comprovada a existência de um gene do alcoolismo, mas sabe-se que as filhas de alcoólatras têm mais propensão a desenvolver a doença.
Só para as mulheres – O tratamento do alcoolismo avança – hoje existem até medicamentos específicos para diminuir o desejo de beber -, mas poucas experiências se revelaram tão eficazes quanto a dos Alcoólicos Anônimos. Pregando a abstinência total e a solidariedade, os AA estão presentes em 154 países, com 2 milhões de membros. No Brasil, são perto de 5 mil grupos, com aproximadamente 100 mil “alcoólatras em recuperação”. Ajuda na empresa – Muitas empresas começam a deixar de ver o alcoolismo com preconceito. Não é só generosidade.
A cada ano, o uso descontrolada de drogas como álcool, maconha e anfetaminas custa ao Brasil cerca de 48 bilhões de dólares em internações, faltas ao trabalho e outros problemas. Preocupadas com isso, companhias como a Avon implantaram programas voltados para dependentes químicos. “Além do lado social, a produtividade do funcionário se normaliza, o que nos poupa custos de desligamento, contratação e treinamento”, afirma a diretora de recursos humanos.Onde procurar ajuda – Há cerca de 5 mil grupos de Alcoólicos Anônimos no Brasil. O escritório nacional fica em São Paulo, tel.(11) 229 3611, site www.alcoolicosanonimos.org.br .
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