Na busca cega do poder, ninguém consegue preencher e saciar sua necessidade, porque comete o erro de transformar um meio de conseguir algo em um fim em si mesmo. A pessoa se perde na busca do poder.
E assim, perdida, passa a manifestar sua fome emocional, sua fantasia edipiana, seu vínculo fantasioso com os pais que a rejeitaram. O que ela mais deseja é o afeto que não teve, o amor que perdeu e que, provavelmente, não irá ter. Será difícil encontrá-lo, porque o busca na fonte errada. Afinal, dinheiro não compra amor, nem a força conquista o afeto. Não é o domínio que vai despertar o carinho. Não é a imposição que provoca simpatia e muito menos ternura. Uma pessoa não pode ter o amor, nem o respeito daquele a quem subjuga.
Em vez de ajudar, o padrão de conduta do poderoso prejudica seus relacionamentos, mesmo que haja uma multidão para atendê-Io e servi-lo. Ele agirá de cima para baixo todo o tempo. Até as pessoas que lhe são mais íntimas são vistas como suas serviçais. Para ele, todo mundo é responsável por atender, não suas necessidades, mas seus caprichos. Não seus desejos, mas seus impulsos ruins. Escrúpulo e respeito não fazem parte de sua conduta.

Na realidade, o poderoso quer o poder para controlar os outros e, assim, proteger-se da impotência e da fragilidade que sente. É bom lembrar que o livre-arbítrio deve ser exercido para o controle pessoal, não o controle alheio. Ninguém quer ser controlado quanto ao que fazer da própria vida, ao que sente, ao que pensa, ao que acredita, ao que valoriza. Ninguém recebe poder para controlar a vida de outrem. O poder é dado para ser usado com parcimônia, em benefício próprio e do semelhante, com o objetivo de se estabelecer uma existência mais justa e harmônica. Deve ser usado na busca de resultados positivos, como a valorização pessoal e do outro, satisfação e bem-estar mútuos, o prazer de viver, a felicidade da comunhão.
Exercer poder não significa dominar, explorar, subjugar, mas cuidar. Trata-se de um cuidado que não transforme sonhos em pesadelos, bênção em maldição, atração em repulsa, amor em ódio, bondade em maldade, prazer em dor. O exercício do poder implica crescimento e ninguém cresce sozinho.

AS FONTES

Todos têm poder. Usá-Io corretamente, ou não, é uma escolha. Conforme a escolha feita, o resultado será crescimento em amor e justiça. Para facilitar a decisão, é preciso conhecer a origem do poder que se pretende usar. Pode-se começar pelas habilidades inatas. Embora alguns recebam mais, e outros recebam menos dons, o fato é que vários atributos inatos geram poder. Por exemplo: inteligência, aptidões específicas, características físicas como beleza, altura, força e destreza, entre outros, são atributos valorizados e desejados. Eles chamam a atenção e facilitam o poder de influência de quem os possui. Damos mais crédito às pessoas inteligentes, bonitas, altas, fortes, ágeis e com algum talento, mesmo que seja herdado e não envolva nenhum mérito de quem o possui. Essas representam uma influente fonte de poder herdado para levar outras pessoas à ação.
Uma segunda fonte é o poder legitimado e validado. É o grau de autoridade que a pessoa exerce. Poder reconhecido pela lei e pelos costumes. Para que as decisões de uma autoridade possam ser obedecidas e tenham efeito positivo, é preciso que haja concordância e aceitação dessas decisões. Em qualquer nível o valor da autoridade pode ser observado pelo grau de mudança espontânea que ela exerce e não pela força de imposição que aplica. É preciso cuidar para não transformar a autoridade legítima em ilegítima. Caso isso aconteça, os resultados serão desastrosos para todos os envolvidos. Apesar disso, a autoridade existe e precisa ser respeitada. Uma comunidade não pode existir sem hierarquia de poder.
Temos também o poder do especialista, um membro do grupo ou um dos cônjuges, a quem são atribuídos conhecimento e habilidade superiores. É o valor da informação. É aquele que sabe que tem conhecimento e o demonstra. Supõe-se que o possuidor de mais informação tenha mais conhecimento, portanto tem mais poder. Qualquer um pode ter acesso a essa fonte de poder. É uma fonte mais democrática. Só que é preciso esforço para conquistá-Ia.
A punição é outra fonte de poder.
É a habilidade da coerção. Os pais, a polícia e os magistrados têm o poder de coagir os outros. É um tipo de poder que provoca reações sentimentais negativas. Se a punição não for justa, desperta revolta. É um poder que inibe e limita a ação dos outros. Por isso, é desagradável. A punição não se restringe à violência física. Pode ser abuso verbal emocional expressão de desaprovação etc. O problema do exercício do poder da coerção é a exigência de vigilância permanente, a fim de impedir a prática de comportamento proibido. Deve-se ter senso de justiça na prática do poder coercivo.

RECOMPENSA E IMPARCIALIDADE

Uma quinta fonte de poder é a prática da recompensa. É o poder de gratificar, premiar, reconhecer, agradar. É poder que agrada a quem o recebe. Produz resultados afetivos opostos ao poder da coerção, porque, em vez de inibir a busca do alvo, ajuda a alcançá -lo. Essa ajuda pode vir através de muitas formas: dar atenção, fazer favores, animar, parabenizar. A aprovação do comportamento por outra pessoa tem um valor de recompensa muito grande. O problema é que, muitas vezes, quem recebe não valoriza a recompensa recebida. Alguns fatores contribuem para a aceitação ou não da recompensa: o status da fonte e a sinceridade da dádiva, a necessidade de quem recebe. Se a fonte não for valorizada, é inútil a ajuda ou recompensa. Se a dádiva for oferecida de má vontade, perde o efeito recompensador. Não se pode esquecer que a recompensa está relacionada com promessa. Promessa feita e não cumprida destrói o poder de quem prometeu.
Poder, poder, poder, fome de poder! Ele pode ser bom e pode ser ruim. Quanto mais a pessoa estiver consciente do poder que possui, mais apta estará para identificar as fontes que usa. Temos várias, mas com predominância de uma delas. Não importa a fonte, mas importa que seja aplicada para fazer justiça, para agir com imparcialidade e vivenciar o amor ao próximo e a si mesmo. Quanto mais se conhece mais fácil é amar.
Cuide do poder que você tem.
Assim, estará cuidando de sua saúde mental sua felicidade e sua vida conjugal e social sem esquecer que, a todo momento, estamos exercendo poder, quer tenhamos consciência do fato ou não. Com poder, pratique a justiça e vivencie o amor.
 
 
Para exercer corretamente o poder, é preciso conhecer sua origem.