Ele estava muito mal. Tinha brigado com o seu pai e sua mãe, pois entendia não ter recebido atenção e carinho suficientes. Seu irmão mais velho, com quem por um tempo dividia uma academia de futebol - a paixão pelo esporte era mania familiar -, era agora visto como um escroque; ele preferia ver o diabo a encontrar, mesmo que por acaso, esse irmão.
No início do ano, havia se mudado para Ribeirão Pires, contratado por sua irmã para gerenciar uma escola maternal de propriedade dela. Passados dois meses de relativa paz, tudo explodiu. Estava convencido de que sua irmã o maltratava e quase entrou na justiça com um processo trabalhista contra ela e o marido. Não namorava há bastante tempo e seus 35 anos era vazios e inúteis.
Foi um amigo da família que pediu ao analista para atendê-lo, com urgência. Contou-lhe, em tom quase ameaçador, que Raul - era esse o seu nome - já tinha feito um périplo cansativo por profissionais da área, de diversas orientações , sem melhor resultado que a criação de novos inimigos. Topou a parada. Chegando o dia e a hora, lá estava ele, sorriso simpático e desconfiado, comprimento firme e disposição olímpica para relatar seus infortúnios.
O analista ouviu com bastante atenção e interesse as minúcias de seus desencontros, que ele contava sem esconder detalhes. Quando percebeu que podeia falar, trasmitui-lhe o seu assombro:
- Mas você é formidável!
- Como? - perguntou Raul, com os olhos esbulgalhados - Como posso ser formidável!
_ Esculta aqui - respondeu - Uma pessoa que consegue aos 30 anos e poucos anos estar brigado com o pai e a mãe, não comprimenta o irmão, processa a irmã, não tem namorada, nem um amigo, nem um emprego, nem dinheiro, nem casa, nem comida; é um grande realizador. È impossível alguém conseguir insucesso em todas as áreas do relacionamento e do trablho. E reiterou:
- Você é o máximo.
_ Esculta aqui - respondeu - Uma pessoa que consegue aos 30 anos e poucos anos estar brigado com o pai e a mãe, não comprimenta o irmão, processa a irmã, não tem namorada, nem um amigo, nem um emprego, nem dinheiro, nem casa, nem comida; é um grande realizador. È impossível alguém conseguir insucesso em todas as áreas do relacionamento e do trablho. E reiterou:
- Você é o máximo.
O analista teve, por um segundo, a impressão de que Raul estava prestes a se levantar e ir embora, pensando ter encontrado um louco em franco desvario. Mas não. Ficou. E balbuciando pensativo, entre o riso e a procupação, disse-lhe:
- È, é muito esquisito, mas você pode ter razão. Nunca tinha pensado que eu era tamaha desgraça.
- È que não é fácio atingir tal insucesso - acrescentou o analista.
Pediu-lhe, então, que contasse, passo a passo, os segredos de seu insucesso. Ao contrário de um livro de auto-ajuda, era como se tivesse pedindo a Raul seu diário de autodestruição. O interessante que o analista demosntrava em conhecer o seu método de vida era tão grande que Raul não se sentiu à vontade em frustrar o seu vigoroso ouvinte.
Nos encontros posteriores tal como solicitado, um pouquinho precavido das intenções, iniciou um relato pormenorizado de como tinha construído seu infortúnio radical. O analista intervinha aqui e ali, nas passagens pouco claras ou contraditórias, como o objetivo de evidenciar a lógica do insucesso absoluto.
Não demorou muito, na medida em que ditava esse livro falado, para que Raul se desinteressasse gradativamente, desse personagem de tal modo complicado e cansativo. Chegou um dia contado ter arrendado um sítio, sempre em Ribeirão Pires, e começado uma crianção de coelhos. O desinteresse pela sua desgraça foi se somando à falta de vontade de continuar indo aos encontros. Com relativa educação, deixava escapar, vez ou outra, que achava um pouco esquisito falar para lagém que, diferentemente dos outros, não o obrigava a ser uma pessoa normal,
nem o chamava de maluco e, pelo contrário, admirava sue eficiente método produtor de desgraça.
nem o chamava de maluco e, pelo contrário, admirava sue eficiente método produtor de desgraça.
Chegou a tempo ele foi embora. Recentimente, o analista encontrou aquele que o havia enviado. Este, contou-lhe que Raul esta ótimo, só não sabendo se havia ou não feito um tratamento - mas que sua vida agora era outra, lá isso era: tinha até descoberto um grande amor! Intrigrado o amigo da família perguntou:
- Que raios você fez com ele?
- Nada, além de emprestar consequência ao que me dizia.
- Que raios você fez com ele?
- Nada, além de emprestar consequência ao que me dizia.




