Ser humano passa um terço da vida dormindo e sonha durante um quarto desse tempo O que é o sonho, como se manifesta e qual a sua função? Por que sonhamos e o que acontece enquanto sonhamos? Essas questões suscitam debates e pesquisas há milhares de anos. Desde o Egito antigo, no tempo dos faraós, o sonho já era objeto de estudos. Na Grécia, os famosos templos de Asclépios (deus da medicina) recebiam pessoas em busca de conselho e cura, muitas vezes atribuída à ajuda dos sonhos. Na Bíblia, consta que a interpretação que José deu ao sonho do faraó evitou sete anos de fome . Foi também em sonho que um anjo apareceu para São José anunciando que Maria esperava o filho de Deus. Os xamãs, na Ásia, ou os índios, na América, também atribuíam um grande valor aos sonhos. Do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.)ao criador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), e Carl Jung, passando por pesquisadores como Hans Berger (inventor do eletroencefalógrafo, em 1929), Aserinsky e Kleitman (que descobriram o sono REM e NREM), e ainda Dement e Kleitman (que estudaram as inibições/interrupções experimentais na década de 50), muitas teorias surgiram ao longo dos anos. Algumas foram deixadas de lado depois das descobertas neurológicas. Outras ganharam força e motivaram pesquisas para entender adequadamente a função do sonho. Na realidade, o sonho nada mais é do que uma experiência enquanto dormimos. É nesse momento que processamos as informações recebidas. Tal como um computador, nosso cérebro seleciona e guarda aquelas necessárias às nossas vidas. “Gastamos, aproximadamente, um terço de nossas vidas dormindo e um quarto desse tempo, sonhando. Será que é à toa? Dormimos e sonhamos não para sairmos dele, mas para encontrarmos algumas pistas, descobertas que vão nos ajudar na nossa vida”, afirma Rogério Niffinegger, mestre e doutor em psicologia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ).
De acordo com a neurologista Marília Denise Mariani Pimenta, especialista em medicina do sono e titular da Academia Brasileira de Neurologia, com os avanços tecnológicos nessa área já se consegue determinar com precisão o momento exato em que o sonho começa e termina. Também é possível saber se o sonho é calmo ou não, pelo tipo de movimentos oculares que as pessoas fazem, “mas o que elas sonham ainda fica só para Morfeu (deus do sono)”.
Descobertas feitas durante o sono Os sonhos são objetos de estudo na psicoterapia. “Várias descobertas são feitas enquanto dormimos. Podemos ser advertidos a tomar devidas precauções com nossa saúde ou ter a indicação para algum problema que estamos enfrentando”, diz Rogério. Há uma dimensão transpessoal. Esse estado de consciência aumenta a sensibilidade para algo que aconteceu ao seu redor, que alguns chamam de sonhos mediúnicos ou pressentimentos.
“O radar da pessoa está ligado e toda energia está centrada ali. O ser humano pode vir a perceber coisas não necessariamente ligadas a ele.” Em 1975, Persinger estudou os efeitos de ultra-sons em voluntários dormindo. Eles acordavam com náuseas, tonturas e ansiedades. Segundo o psicólogo, isso demonstra que a nossa consciência interna, mesmo quando dormimos – e, por isso, está em nível diferente do habitual –, é sensível às perturbações ambientais, ainda que sutis.
O aprendizado e rearranjo cognitivo é que vão fazer com que, através dessa reconfiguração, possam ocorrer saltos qualitativos em termos de consciência. Na psicoterapia, o sonho é um aliado. O especialista explica que, muitas vezes, a pessoa chega ao consultório buscando ajuda para a solução de algum problema: “Nós começamos o trabalho com essa pessoa, mas temos um aliado, que é o sonhar. O sonho é um metaprograma que controla outros programas em prol da saúde. Pedimos a essa pessoa para prestar atenção aos sonhos e perceber o que acontece. A partir daí, vamos analisar e descobrir as pistas que os sonhos deixam”. Hoje, segundo o psicólogo, existe um sistema terapêutico sofisticado que usa a atividade onírica. Quando o paciente não se lembra do sonho, ele é induzido a sonhar acordado, utilizando imagens que são importantes em termos do processo terapêutico. “Podemos pedir a ele que desenhe os sonhos, por exemplo.
Interessa que ele fique receptivo e que as imagens oferecidas sejam terapêuticas”, diz Rogério. Ele explica o que é um “sonho lúcido”: a pessoa dorme, sonha e, se tiver treino e paciência, pode ‘acordar’ no sonho e fazer alterações necessárias no mesmo. Antes de dormir, a pessoa pode pedir para o seu ‘eu’ sonhar com alguma pista sobre algo, e isso acontece. “É o que chamamos de ‘incubação do sonho’. Buscamos, no processo terapêutico, via sonhos, elementos que, aparentemente, estão desconectados, mas na realidade não estão. Nada neste ‘programa de computador mental’ é aleatório.
A mente tem um ordenador interno. Na medida em que prestamos atenção ao sonhar, então, ajustes positivos podem acontecer”, afirma. Foi o que aconteceu com o psicólogo Joaquim Rodrigues. Durante o tratamento com psicoterapia – que procurou para estar bem consigo mesmo e, com isso, poder acompanhar os pacientes –, ele relatou um sonho que o deixou intrigado. “Sonhei com animais selvagens que atacavam seres humanos. Eu estava dentro de um caminhão com meu irmão, e fizemos um círculo para nos proteger.” Joaquim Rodrigues desenhou o sonho no papel para o terapeuta, que pediu a ele para vivenciar o sonho do ponto de vista dos animais. “Eu me vi pulando nas árvores e, quando olhei de cima, as pessoas e os animais estavam correndo sem saber por quê. Descobri que o sonho tinha relação com a criação que tive, o meu pai era muito rígido.
Eu era filho mais novo e reagia muito, intrometia nas questões familiares. Quando percebi que o automatismo dos animais correndo era o mesmo automatismo que me levava a reagir em casa, tudo se clareou. Os animais se dispersaram e as pessoas seguiram para a cidade. Depois disso, a minha relação com a família mudou muito.
Foi uma transposição de nível.” MATURIDADE Outro sonho de que Joaquim Rodrigues se lembra foi com uma criança que o puxava pela mão e, chorando, queria que ele a levasse para algum lugar. “Aquilo me incomodava porque eu não tinha tempo para dar atenção àquela criança. Ao trabalhar esse sonho na terapia, vi que estava ligado à imaturidade. Medo de encarar o lado profissional”, diz. Segundo o psicólogo, os sonhos dão dicas, chamam a atenção para problemas mal resolvidos, conflitos, despertam potenciais e validam as nossas experiências para permitir saltos qualitativos.
“O sonho te dá acesso ao mundo mágico, fantástico. Desperta a consciência para o outro lado, do inconsciente, e faz a integração.” Os sonhos em psicoterapia são temas de cursos semestrais no Pró-Gente – Centro de Psicologia e Desenvolvimento Humano, voltados para psicólogos. Maria Teresa Ribeiro Dias e Madalena Nogueira já estão no terceiro módulo do curso, ministrado por Rogério. Segundo elas, esta é uma experiência enriquecedora, que propicia um avanço no autoconhecimento. “Sinto que nossa sensibilidade fica mais aguçada”, argumenta Maria Teresa. Os sonhos são a matéria-prima para o trabalho do grupo. Cada dia, um participante leva um sonho que teve e que considera significativo para discussão.
Maria Teresa afirma que esse não é um processo estanque, pois “através do sonho, não vemos solução de problemas, mas enxergamos saídas, detectamos coisas importantes, como incongruências, estilo de vida, desafios. É tudo muito sutil”. De acordo com Madalena, o sonho é um mecanismo revelador. Sua avaliação é individual e única, já que cada um tem sua história de vida, suas amarras e conflitos. “Não existe um modelo. Trata-se das sutilezas, da delicadeza e da poesia.
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