A 81ª sessão da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova York a partir de terça-feira (22), reune líderes mundiais em meio a disputas geopolíticas, conflitos armados e questionamentos sobre a governança internacional. Entre os destaques estiveram o último discurso do secretário-geral António Guterres e as falas dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.
Lula defendeu o multilateralismo, a soberania brasileira e a reforma do Conselho de Segurança da ONU, além de abordar o combate ao crime organizado e a não interferência externa nas eleições brasileiras. Trump, por sua vez, falou sobre o uso da força militar para avançar sua agenda e fez referências ao Irã e a Cuba.
Atualmente, se questiona se a instituição multinacional deve ter uma reforma abrangente para tratar da maior onda de conflitos desde de sua criação. No Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, comentamos a repercussão da reunião da ONU.
Para Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais do IBMEC Brasília, o atual enfraquecimento dos órgãos multilaterais está relacionado à política externa adotada pela Casa Branca, mas não significa necessariamente que a ONU tenha perdido sua relevância.
"Eu vejo como um momento que se equivale ao seu próprio governo", afirma. Para o especialista, uma eventual mudança na política externa estadunidense pode voltar a priorizar o multilateralismo, que considera importante para áreas como comércio e segurança internacional.
Caichiolo também defende uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, que ainda reflete uma realidade de décadas atrás. O poder de veto dos cinco membros permanentes, avalia, contribui para o imobilismo do órgão, enquanto países como Brasil e Índia reivindicam maior participação.
"Ele acaba não sendo representativo realmente do que acontece hoje no cenário internacional", avalia.
Sobre o discurso do líder norte-americano, o especialista afirma que a defesa do uso da força militar sinaliza uma política externa mais dura dos Estados Unidos, especialmente no Hemisfério Ocidental. "Remorando a Doutrina Monroe e tentando implementar os seus interesses, sejam eles comerciais ou militares aqui na região, pensando na América Latina como um todo".
Segundo Pedro Martins, doutorando em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a crise do sistema multilateral também está relacionada aos próprios limites institucionais da ONU e à dificuldade da organização de agir de forma independente diante dos interesses das grandes potências. Para ele, a gestão de António Guterres foi marcada justamente por esse cenário de restrições.
Além disso, a crise também afeta a legitimidade da própria organização. Martins cita a atuação da ONU na Guerra do Iraque, na invasão na Líbia e nos conflitos envolvendo Irã e Israel como exemplos de episódios que expuseram a incapacidade da instituição de agir de forma efetiva e contribuíram para o desgaste de sua credibilidade entre os países.
Ao tratar da reforma do Conselho de Segurança, Martins aponta que a estrutura atual mantém uma distribuição de poder estabelecida no pós-Segunda Guerra Mundial. Países como Brasil, Índia, Alemanha e Japão, que integram o chamado G4, defendem a ampliação do número de membros permanentes, mas enfrentam resistência das atuais potências com poder de veto.
Para Martins, a inclusão de novos integrantes significaria justamente a diluição da parcela de poder concentrada nos cinco membros permanentes. O especialista ressalta, porém, que a resistência à reforma não parte apenas dos Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
Os próprios países que reivindicam novos assentos enfrentam oposição de rivais regionais. No caso brasileiro, por exemplo, Martins cita a resistência histórica da Argentina à possibilidade de o Brasil ocupar um assento permanente. "Cada país do G4 tem pelo menos um rival regional que se opõe a essa medida".
Além da disputa entre os países que já possuem poder dentro do Conselho de Segurança e os que buscam ampliá-lo, há ainda diferentes interesses entre os próprios candidatos a novos assentos, incluindo países africanos. Para Martins, esse conjunto de disputas ajuda a explicar a dificuldade de avançar em uma reforma da estrutura.
Diante desse cenário, o especialista avalia que uma eventual incapacidade de reformar os mecanismos de decisão internacionais pode levar a uma maior fragmentação institucional, com diferentes blocos e organizações regionais assumindo parte das funções de governança.
Segundo Martins, esse processo já pode ser observado no sistema financeiro, com a existência de alternativas ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), como o Novo Banco de Desenvolvimento, ligado aos BRICS, e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura.
Na área política, porém, Martins vê riscos maiores de paralisia. "Minha análise é de que você vai ter uma situação do Conselho de Segurança completamente paralisado, como foi na Guerra Fria."
Nesse cenário, conflitos e crises internacionais poderiam depender cada vez mais das estruturas e relações de poder de cada região. O fortalecimento de organizações como os BRICS, a União Africana e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), segundo Martins, poderia contribuir para a criação de mecanismos alternativos de governança regional.
Fonte: Sputnik Brasil.




