Operação mais letal do Rio completa 1 ano, mas familiares seguem em busca de respostas

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Um ano após a megaoperação mais letal da história do Rio de Janeiro, ainda não há evidências da estabilização ou retomada de domínio do território pelas forças de segurança pública. E as dúvidas sobre a atuação policial ainda não foram esclarecidas.
Familiares reclamam de não ter acesso aos laudos cadavéricos das vítimas, o que impossibilita, por exemplo, determinar como as mortes aconteceram. Tauã Brito é mãe de um jovem que foi morto naquele dia e conta que o filho já estava rendido.
Ela ainda afirma que o esclarecimento das mortes é crucial e que as consequências desse dia refletem em todos os familiares. “Então, assim, não é só mataram e acabou. Não. Deixa sequelas para toda uma família e que isso pode acarretar para o resto de uma vida. Então, não é fácil.”
A Operação Contenção deixou 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Na época, a ação da Secretaria de Segurança Pública foi considerada um sucesso pelo então governador do Rio Cláudio Castro e pelos secretários da Polícia Civil, Felipe Curi, e da Polícia Militar, Marcelo de Menezes.
A identificação da maior parte dos mortos como integrantes de facções, somada ao número de 91 fuzis apreendidos e 133 presos motivaram a afirmação da cúpula de segurança pública fluminense.
No entanto, Informações cruciais para comprovar a proporcionalidade da atuação policial, como a dinâmica das mortes, ainda não foram esclarecidas. Até o momento, o Ministério Público apresentou 12 denúncias contra 18 policiais militares por ilegalidades praticadas durante a operação, envolvendo apropriação de armamento, furto de peças de veículos, invasões de domicílio, constrangimento de moradores, subtração de bens, além de tentativas de obstrução ou desligamento de câmeras corporais.
O advogado de direitos humanos Rodrigo Mondego questiona a eficiência da operação policial, já que não houve a prisão de integrantes do primeiro escalão do crime organizado.
A ação das polícias civil e militar teve a participação de 2.500 agentes de segurança, com o objetivo inicial de cumprir mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho (CV), facção criminosa que exerce o controle daquele território.
Os agentes iniciaram a operação na noite do dia 27 de outubro, e a presença se estendeu até o dia seguinte, com registros de intenso tiroteio por mais de 10 horas seguidas. Na época, o primeiro balanço oficial informava a morte de 64 pessoas. Mas os próprios moradores e as lideranças comunitárias encontraram os outros corpos em uma região de mata e os colocaram lado a lado na praça São Lucas, na Vila Cruzeiro. O registro desse momento em fotos e vídeos rodou o mundo. Ao todo, foram 122 mortos, sendo cinco policiais militares.
Além da letalidade, um ponto em especial chamou a atenção de especialistas em segurança pública: a espetacularização das técnicas usadas pela polícia, como o chamado “Muro do BOPE”. Segundo Silvia Ramos, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, a tática que encurralou e matou os alvos da polícia ter sido massivamente difundida na imprensa e nas redes sociais foi surpreendente.
Menos de um ano depois, o secretário de Polícia Civil Felipe Curi foi eleito deputado federal e o secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes ganhou a disputa para o cargo de deputado estadual na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).
Para os especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem, as candidaturas foram a única consequência direta dessa operação, como explica o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência, Ignácio Cano.
Com mais de 30 anos de pesquisa na área de segurança pública, Silvia Ramos explica que o melhor caminho para combater o crime organizado é a desarticulação da cadeia de comando. Para ela, matar pessoas em operações ostensivas não funciona porque elas são substituídas no dia seguinte.
A opinião é compartilhada pelo especialista em segurança Ignácio Cano. Ele conta que as forças policiais acreditam que a ausência de operação vai permitir que o tráfico amplie sua atuação, mas garante que isso não se comprova cientificamente.
Em nota, o Ministério Público informou que o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública do órgão, o GAESP, segue com uma investigação que reúne mais de 4 mil horas de gravações de câmeras corporais, 122 laudos periciais médico-legais e 262 depoimentos de agentes públicos, prestados por 255 pessoas distintas. O MP ainda ouviu 45 familiares de pessoas mortas durante a operação, além de prestar apoio às vítimas.
A investigação do Ministério Público também identificou falhas recorrentes no uso das câmeras corporais durante a operação, como agentes sem equipamentos, câmeras descarregadas, falta de baterias suplementares e problemas no planejamento da distribuição e do uso dos dispositivos. O órgão expediu recomendações para o aprimoramento do uso das câmeras corporais.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro também se pronunciou por nota e reforçou que a Operação Contenção permanece em andamento e não se limitou à ação realizada em outubro do ano passado nos complexos do Alemão e da Penha. A pasta informou que, desde então, foram realizadas 78 ações contra o Comando Vermelho e já foram solicitados bloqueios de bens e valores que totalizam R$ 12 bilhões, envolvendo empresas e pessoas ligadas à facção. A medida busca atingir a estrutura econômica que sustenta as atividades criminosas.
A Delegacia de Homicídios da Capital continua investigando as mortes dos 117 criminosos registradas durante a operação de outubro. Já as investigações sobre os assassinatos dos cinco policiais foram concluídas. Ao todo, 12 criminosos foram indiciados.
Procurados, o ex-governador do Rio, Cláudio Castro, o ex-secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, e o ex-secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, não se pronunciaram.

Fonte: Sputnik Brasil.

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