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A Rússia planeja investir 17,1 trilhões de rublos (cerca de R$ 1 trilhão) em defesa em 2027, o maior nível para o setor registrado desde o início da operação militar especial na Ucrânia, em 2022.
O planejamento de Moscou pode ser interpretado como um recado sobre sua capacidade de resistência e sua posição em futuras negociações. Ele também faz parte do programa de reformulação geral das Forças Armadas russas. Colocado em prática em meados dos anos 2000, o programa já alcançou 90% da meta.
A reformulação é reflexo direto da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que levou a Rússia a tomar medidas de proteção, conforme aponta ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Felipe Dalcin, professor de relações internacionais na Universidade da Região de Chapecó (UNOCHAPECÓ), doutor e mestre em estudos estratégicos internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretor de pesquisa do Instituto Sul-americano de Política e Estratégia (ISAPE).
Ele acrescenta que o investimento na defesa russa aumentou após a eclosão do conflito ucraniano, mas destaca que o próprio conflito tem ligação direta com a expansão da OTAN. E embora o momento seja oportuno para uma negociação de garantias entre EUA, Europa e Rússia, a desconfiança impede uma iniciativa nesse sentido.
“Acho que nenhum dos lados tem muita confiança sobre a possibilidade do outro de respeitar tratados, de fazer tratados, sobretudo de controle de armamentos.”
Dalcin diz que atualmente as discussões abraçam muito a questão da Ucrânia, mas não se dedicam a debater os constrangimentos que a Rússia sente com a expansão da OTAN e a eventual participação da Ucrânia como Estado cooptado pelo Ocidente.
“Porque você pode instalar mísseis de médio e curto alcance que teriam capacidade de fazer ataques que visariam, inclusive, vitimar a liderança política da Rússia de uma maneira muito rápida. A gente tem que lembrar que a fronteira ucraniana está a 600 km de Moscou”, observa.
Para o especialista, o ideal seria buscar um meio termo em que os dois lados se sentissem menos ameaçados, mas os sinais emitidos pela Europa vêm na direção oposta.
Ele afirma que uma das lições do conflito ucraniano é a eficácia do uso de drones produzidos a baixo custo, que, quando usados em massa, conseguem ultrapassar uma barreira antimísseis esgotando a capacidade dela de interceptar todos eles.
“Outra maneira de você ganhar de uma barreira antimíssil, ou um sistema de defesa aérea, é com alta velocidade com mísseis hipersônicos, […] como a Rússia também demonstrou fazer na guerra da Ucrânia, sobretudo através dos mísseis Oreshnik“, afirma Dalcin.
Na visão de Dalcin, a russofobia também desempenha um forte papel nesse cenário ao impedir a abertura de canais de diálogo, pois se um lado é visto como “errado”, o outro lado não busca aproximação.
Getúlio Alves de Almeida Neto, pesquisador do Centro de Investigação em Rússia, Eurásia e Espaço Pós-Soviético (CIRE), avalia que desde que a Europa entrou como a maior apoiadora financeira, política e bélica junto à Ucrânia, eles dragaram para o continente inteiro essa relação de insegurança.
“Ao fazer isso, eles [europeus] estão criando uma sensação de que, em algum momento, um ataque pode acontecer, e criando na percepção do governo russo [a ideia] de que eles estão se preparando para fazer alguma manobra”, afirma.
Somado a isso, a russofobia faz com que a atenção internacional seja voltada para o aumento dos gastos militares russos, enquanto os países da OTAN, que ampliam a toda hora os seus gastos no setor, passam despercebidos. Isso gera a percepção de que a Rússia, a qualquer momento, vai atacar a Europa, sendo que não há nenhuma justificativa lógica e plausível para imaginar que isso vai acontecer.
“E aí, reiteradamente, o governo russo precisa insistir de que não há nenhum plano para atacar os Países Bálticos, a Alemanha ou qualquer outro país que seja. Mas é uma forma desses países da Europa justificarem seus gastos.”
Neto sublinha que o aumento do gasto militar russo reflete a resiliência da economia, que não afundou diante da política de sanções como o Ocidente esperava.
Ele acrescenta que o investimento na indústria de defesa também impulsiona outros setores da economia e a inovação.
“A indústria de defesa é baseada num forte fluxo de capital intensivo, são tecnologias que requerem muita capacidade de pesquisa, muita capacidade de inovação tecnológica e respalda vários setores da economia do país.”
Fonte: Sputnik Brasil.
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