Um dos recursos mais acessíveis para se tentar alcançar esses padrões de beleza é a atividade física. Ao mesmo tempo, hoje em dia a atividade física está intimamente relacionada à na literatura científica que o exercício físico traz benefícios à saúde, não só para o aspecto físico, mas também psíquico. A experiência do grupo da unidade de reabilitação cardiovascular e fisiologia do exercício do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IncorFMUSP), responsável pelo Programa de Condicionamento Físico Aplicado à Prevenção e Reabilitação Cardiovascular, mostra que a prática de atividade física regular reduz sintomas de estresse e provoca elevação no nível de qualidade de vida, sobretudo no que tange ao âmbito social e aos cuidados com a saúde. Além disso, a longo prazo atenua padrões de comportamento Tipo A, que se referem, segundo a dra. Anency Giannotti, aos indivíduos mais ambiciosos e competitivos, que lidam regularmente com hostilidade e com uma urgência de tempo acentuadas. São as vítimas da chamada "doença da pressa".
É curioso notar que a mesma atividade física responsável por tantos benefícios também pode prejudicar a saúde se praticada com exageros. Ambientes extremamente competitivos, um alto grau de exigência do grupo ou do indivíduo consigo próprio, exercícios inadequados e outros fatores podem proporcionar efeitos contrários aos desejados. Não são raras, nos dias atuais, as histórias de pessoas que ultrapassam o limite do saudável em nome de corpos perfeitos. Aí se excedem também na alimentação e no uso de recursos estéticos e cirúrgicos, entre outros.
Modelos de perfeição
Os meios de comunicação em massa divulgam os novos padrões de beleza e a sociedade exerce pressão para que se chegue à perfeição desses modelos esteticamente padronizados. Não se leva em conta que cada época produz um modelo específico. O ruim não é a existência do modelo, mas o fato de passarem a ser perseguidos obsessivamente. Todo ser humano segue modelos: materno, paterno, de relações. Porém, todos eles devem funcionar como matéria-prima a ser redimensionada dentro da realidade individual de cada um e não com a rigidez de uma fôrma.
Na atualidade, a pressão social presente na imposição de modelos estéticos é muito forte e potencializada pela mídia. Cede-se em maior ou menor grau a essas pressões, dependendo das características individuais, do grau de auto-exigência, da auto-estima, da ansiedade. Mas não se pode observar esse problema apenas pelo ângulo individual.
Vivemos um momento histórico em que, após a revolução sexual e a partir do movimento feminista, instaurou-se uma crise de valores. Desconstruíram-se modelos de ser mulher, mãe, esposa, profissional e construíram-se novos, num primeiro momento caracterizados pela oposição radical a tudo que representava o antigo. O que ocorre agora é uma procura de acomodação desses modelos. Como resultado desse momento histórico, torna-se comum o conflito de valores e de padrões. O desejo de viver alguns aspectos dos antigos modelos geram culpa e nem todos os aspectos dos modelos atuais as fazem felizes, uma vez que o grau de exigência sobre elas aumentou muito.
Obviamente que a construção de novos modelos femininos obrigou os homens a repensar seu próprio padrão. E o que se vê hoje são homens perdidos diante dessa nova mulher. A partir disso, é possível imaginar o que está ocorrendo nas relações entre homens e mulheres. Fala-se em co-criação, ou seja, os parceiros precisam criar juntos uma relação que funcione sob essa nova ordem. Em função disso, vemos casais estabelecerem entre si "contratos" de relacionamento que parecem estranhos para quem os olha de fora, mas que funciona muito bem entre eles. Mas também não é raro que, uma vez dissolvida essa relação, o mesmo contrato deixe de funcionar para os próximos relacionamentos de cada um. Aquelas regras valiam para aquelas pessoas e naquele momento. Um novo parceiro ou uma nova parceira, num outro momento, exige novas criações. Os parceiros precisam ser conquistados diariamente, a relação precisa ser criada e recriada todos os dias, e isso requer que homens e mulheres reflitam sobre seus papéis o tempo todo.
Beleza = felicidade
Junte a isso o fato dc se viver agora na era da velocidade e da globalização, em que as mudanças ocorrem em uma rapidez extraordinária. A necessidade de adaptação pessoal às mudanças externas é muito grande e quem não o faz fica para trás no mercado de trabalho e em outros planos também. O resultado são indivíduos com o mundo interno cheio de flutuações, com dificuldades em relação à auto-imagem e, portanto, à auto-estima, tentando lidar com ansiedades, procurando encontros e achando na maior parte das vezes desencontros.
Diante de um mundo interno tão conturbado, a tendência é colocar no mundo externo a busca de um equilíbrio, a procura da felicidade. Por isso, elegem-se padrões de beleza que enclausuram o corpo em uma "pseudoperfeição". E esse "corpo perfeito" é buscado como se ele fosse garantia do fim das inquietações e da felicidade amorosa, profissional, social. Em nome dessa busca, acaba valendo qualquer coisa: excesso de exercícios, falta de alimentação, ingestão de drogas e cirurgias feitas, em alguns casos, sem critérios.
Preocupada com essa questão social e, sobretudo, com a questão da orientação de atividade física, tentando impedir excessos e visando à melhoria de qualidade de vida, a unidade de reabilitação cardiovascular e fisiologia do exercício do lncor é responsável por um ambulatório de cardiologia do exercício, voltado a pessoas que querem se reabilitar, prevenir doenças cardiovasculares ou simplesmente aderir à prática regular de exercícios. Esse ambulatório atende pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), entre outros, com o objetivo de orientá-Ios para a realização de atividades físicas de acordo com suas possibilidades, em parques, praças ou em casa.
Se ali encontram-se pessoas preocupadas com sua saúde, é inegável que existe também um forte apelo da estética. Para elas, pode ser a oportunidade de ter uma orientação voltada para a atividade física independentemente da freqüência a uma academia, para quem não pode pagar por isso. E pode-se dizer, a partir dessa experiência, que são feitos ajustes de acordo com as várias realidades, mas a preocupação com a estética é a mesma em todas as classes sociais.
MOTIVADAS PELOS IDEAIS DE BELEZA, AS PESSOAS ADEREM À ONDA DOS EXERCÍCIOS FÍSICOS. COM ORIENTAÇÃO E MODERAÇÃO, PODE-SE AGREGAR SAÚDE E BEM-ESTAR




