Símbolo do pecado é acariciado por fiéis

Os mitos desses combates heróicos contra serpentes continuam ao redor do mundo, em praticamente todas as grandes culturas. No Japão, Susanoo, deus das tempestades, lutou contra uma serpente de muitas cabeças. Na Escandinávia, o herói Singurd lutou contra a serpente Fafnir.

 E o deus escandinavo Thor continua até hoje sua batalha contra Midgard, a serpente que se enrosca ao redor do mundo, Mid-gard, por sinal, não é a única serpente a sustentar o mundo: Sesha, o rei-serpente das Nagas também o faz. E, claro, nenhuma dessas serpentes é necessariamente maligna. Todos esses combates representam simplesmente a luta heróica de todo herói ou heroína para vencer os impulsos e pulsões bestiais que existem no seu inconsciente.

No mundo ocidental cristão, no entanto, o simbolismo da serpente carrega uma conotação ligada ao mal. A religião cristã a associa ao caminho da escuridão, do pecado e do inferno. Lembram da história de Adão, Eva e a serpente do paraíso? Nos sistemas judaico-cristãos, a serpente é freqüentemente associada ao desejo sexual.

Nos Estados Unidos existe um curioso culto às serpentes, praticado em algumas congregações fundamentalistas. Essa prática começou em igrejas do Tennessee e do Ken¬tucky, espalhando-se depois pela Carolina do Norte e Virgínia. Apesar de uma lei que proíbe esse tipo de culto, sabe-se que ele continua sendo praticado. As cobras utilizadas nessas cerimônias são a cobra d' água e a cascavel. Enquanto elas estão nas caixas, cantam-se hinos, pronunciam-se sermões.

Aos poucos, os fiéis entram numa espécie de estado de êxtase, momento em que as serpentes são retiradas das caixas e passam de mão em mão. Várias serpentes são espalhadas no interior do templo, e acariciadas pelos fiéis. Os líderes desses cultos dizem que eles representam a renhida luta dos crentes para dominar seu desejo sexual. Mas um outro observador diria que se trata, simplesmente, da ativação de uma memória atávica na qual as serpentes ainda dominam, para o bem ou para o mal, o inconsciente profundo de todos nós.