Trabalho com gente muito jovem, ainda bem. Assim estou constantemente aprendendo coisas novas. Outro dia, por exemplo, aprendi que conversar está totalmente ultrapassado. Pelo menos conversar no sentido antiquado, que requer duas ou mais pessoas dialogando , de preferência ao vivo.
Caso você esteja desatualizado do ambiente produtivo de hoje, vou contar como é. Quase todos os escritórios têm computadores. Praticamente todos os computadores têm internet. Quase toda internet tem um outrou programinha que ajuda você a "conversar" com um ou mais pessoas ao mesmo tempo. On-line.
Até ai tudo bem, pode ser muito útil conversar on-line quando a pessoa está na Austrália e você no Brasil. Mas e quando se trata do colega da mesa ao lado?
E não é só isso. Como toda tendência, essa atitude isolacionista genha cada vez mais agragados tecnológicos. Nos escritórios modernos, no meu caso, as agências de publicidade, além de estarem todos diante de computadores, "conversando com o colega ao lado", estão todos com fones de ouvidos. È que fazer muitas coisas ao mesmo tempo também é prerrogativa moderna. Trabalhar e ouvir música, "conversar" e ouvir as últimas notícias, e por aí vai. Fico pensando: as pessoas estão se isolando dessa forma por quê?
1- Porque já não têm assunto uma com as outras - tudo é muito fugaz, esvaziado de conteúdo afetivo, e a ansiedade não sustenta mais uma conversa que vá além da superfície.
2- Tudo é dividido e compartilhado o tempo todo, ataravés do Orkut, de outras comunidades virtuais, de blogs, de big brothers e a revista de celebridades. Então todos insuportavelmente expostos. É compartilhamento demais. Estão precisando ficar um pouco sós.
3- Porque os ambientes produtivos são insuportáveis. O convívio com o outro não pode mais ser tolerado. O outro enche o saco e ocupa um espaço qeu não está disponível. Só existe espaço para o eu.
Os adolescentes do passado se isolavam no seu quarto para não falar com ninguém. Os jovens de hoje, estão se isolando do mundo onde quer que o mundo esteja e, mesmo falando com todo mundo ao mesmo tempo, ainda não se deram conta de que estão falando com ninguém.
Sim, estou sendo levemente maniqueísta. São muitas versões, muitos olhares, infinitas possibilidades de edição. Tudo vale. E nada é importante até porque amanhã pode não ser mais nada disso. As coisas mudam rápido. O tempo se desintegra a olhos vistos, e ficamos apesar com a eterna surpresa. Já é novembro?
Os dois lindos que sentam na mesa de trabalho comigo poderiam ser namorados. Olho para eles e vejo um casal espetacular. Acho que eles nem sabem disso. Ou sabem e fazem de conta que não vêem. Eles estão muito ocupados, assim como todos os outros, com os seus fones que os deixam surdos pra vida e suas conversinhas protegidas através da tecnologia.
É tudo de uma sem-gracice humana que me deixa entendiada. Não desejo nada disso pros meus pequenos filhos. Mas essa já é outra conversa.




