Você entre os donos, vire um funcionário-sócio

Virar um funcionário-sócio comprando ações da empresa onde trabalha pode ser um bom negócio Quem trabalha numa empresa que abre o capital costuma ficar em dúvida se vale à pena investir em ações da companhia. O dilema aumenta quando o processo de IPO (sigla em inglês para Oferta Pública Inicial) inclui um desconto especial para funcionários. Até agora, organizações que tomaram essa iniciativa, como a Copasa, de Minas Gerais, ofereceram um abatimento que oscilou entre 5% e 10%. Já houve, entretanto, oferta de 20% no caso da Porto Seguro, de São Paulo. Então, você compraria com um desconto desses? "Se você tem dinheiro disponível, acredita no futuro da empresa e ainda por cima paga menos que outros investidores pelas mesmas ações, não ha motivo para não investir diz o professor Andre Carvalhal, do Instituto Coppead de Administração, ligado a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É claro que, em se tratando de bolsa, uma decisão apressada pode levar sua estratégia de investimento para o beleléu. Há sempre o risco de se perder dinheiro no mercado de capitais. Por isso, consultores recomendam usar apenas parte de suas economias para comprar as ações da empresa onde trabalha se ela, obviamente, estiver sólida, dando lucro e crescendo. E ter paciência. Os lucros podem demorar para chegar. O preço da ação pode até cair nos meses seguintes ao IPO, quando e superada a fase de entusiasmo do mercado com uma novata da bolsa. E se recuperar com o passar do tempo. Esse tipo de movimento no preço da ação (para cima ou para baixo), aliás, não deveria assustar um funcionário que virou sócio adquirindo uma parte da empresa em que trabalha. O detalhe importante aqui é o fato de o funcionário-sócio desfrutar de um outro privilégio em relação ao investidor comum, que é fazer parte da empresa. Além de ter influência direta no resultado da companhia. "O profissional que investe na ação da sua empresa tem, sem dúvida, melhores condições de saber o que realmente está acontecendo na organização", explica o advogado Robson Barreto, especializado em direito empresarial e sócio do Veirano Advogados, com escritórios em cinco Estados. Primeira experiência Foi por acreditar nisso tudo que a executiva Renata Gomes Ubaldo Machado, de 28 anos, gerente de divisão de contratos da Copasa, de Minas Gerais, investiu meio salário na compra de ações com 10% de desconto. E ainda se beneficiou com o pagamento em até oito meses apos a aquisição, realizada em fevereiro deste ano. ''Investi o teto permitido para cada funcionário. Se eu pudesse, teria aplicado mais alto': afirma à executiva. Assim como acontece com a maioria dos funcionários que compram ações das empresas em que trabalham, foi a primeira experiência de Renata com o mercado de capitais. "Fizemos questão de deixar tudo bem explicado para os funcionários, em um trabalho que contou com a participação da Bovespa, para que não houvesse qualquer mal-entendido posterior sobre os riscos de aplicar em ações': diz Ricardo Simões, diretor financeiro e de relações com investidores da Copasa. O momento da abertura de capital e geralmente o escolhido para a concessão de desconto aos funcionários simplesmente por ser urn marco significativo para a companhia, algo que faz o assunto estar "quente" entre os empregados. Mas, apesar da popularização do mercado de ações no Brasil, que parece estar em andamento, o tema dos funcionários que viram sócios ainda é tabu para muitas empresas. A maioria não incentiva abertamente a compra pelos funcionários com receio de serem responsabilizadas por prejuízos no futuro - algo que aconteceu, por exemplo, com muitas aberturas de capital ocorridas na onda que se seguiu ao Plano Cruzado, na segunda metade da década de 80. VOCE S/A contatou 21 companhias listadas na bolsa e poucas delas deram detalhes de seus programas de incentivo para a compra de suas ações. As demais não quiseram dar entrevista, contrariando um principio básico do mercado: a transparência como pilar da boa governança corporativa. Apesar do silêncio da maioria, sabe-se que a decisão de conceder o desconto aos funcionários é encarada por algumas empresas como um passo para valorizar o conceito de remuneração variável. Na Copasa, esse movimento começou em 2003, com a adoção de fórmulas de premiação por resultados. Dos seus 12 700 empregados, 12% aproveitaram o desconto e adquiriram ações da empresa. "No fundo, a oferta de vantagens para comprar ações é um novo tipo de benefício", diz o consultor Gabriel Macarofq, da MZ Consult, de São Paulo, que tem atuado em boa parte dos processos de abertura de capital feitos recente-mente no Brasil. É um baita beneficio, pois, além do ganho com a valorização do preço da ação, o funcionário-sócio passa a ter direito também a receber dividendos, embolsando um dinheiro extra ao menos uma vez por ano.
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