O Reino Unido enfrenta a maior crise de sua integridade territorial. Liderados por governos nacionalistas e tendo o Brexit como inspiração, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte exigem referendos de independência, deixando o futuro da Comunidade Britânica mais ameaçado do que nunca.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, José Renato Ferraz, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), diz que no Brexit a pergunta era se o Reino Unido precisava da Europa. Agora, dez anos depois, a pergunta é se as nações que pertencem à Comunidade Britânica ainda precisam do Reino Unido.
Ele acrescenta que um dos pontos mais impressionantes dessa discussão é a intenção da Irlanda do Norte não apenas se separar do Reino Unido, mas de promover a reunificação com a Irlanda.
Com a reunificação, metade da ilha britânica deixaria o Reino Unido, uma perda territorial extremamente significativa, avalia o especialista. No entanto, ele afirma que, se o debate em torno da separação do Reino Unido for feito de forma conjunta entre os membros da Comunidade Britânica, a Inglaterra terá o maior peso nas discussões.
"A maior população do Reino Unido ainda está na Inglaterra. Se houver um processo em que todos votassem, essa decisão também depende dos ingleses. Não é uma decisão única e exclusiva de escoceses e irlandeses do Norte e também dos galeses. Então veja como é um assunto extremamente complexo e multifacetado", observa.
Ferraz avalia que a fragmentação não comprometeria a posição do Reino Unido dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Marcus Figueiredo, professor de relações internacionais do Ibmec RJ, avalia que o projeto de fragmentação do Reino Unido ficou mais forte porque atualmente muitos países que compõem a Comunidade Britânica têm lideranças nacionalistas.
"E isso com certeza é algo que coloca lenha na fogueira. É um combustível que alimenta essa demanda por separatismos. E, nesse sentido, há um momento histórico diferenciado, sim."
Porém, ele considera que os laços históricos em torno de Londres são "muito fortes e improváveis de serem quebrados".
Ele diz que é difícil definir qual saída será mais prejudicial para o Reino Unido, uma vez que todos os fatores levam a um desafio ao poder central, e traça um paralelo com o que ocorreu com a Iugoslávia na década de 1990, após a Eslovênia declarar a independência nos anos 1980 e ganhar reconhecimento internacional como país independente e soberano.
Na visão de Figueiredo, em uma eventual fragmentação da Comunidade Britânica, a Inglaterra seria a herdeira internacional da posição do Reino Unido em órgãos como o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), assim como ocorreu com a Rússia, após o fim da União Soviética (URSS).
"Acho que esse é um paralelo importante, e o direito internacional e a diplomacia costumam se guiar muito pela tradição."
O mesmo aconteceria em relação ao arsenal nuclear britânico, que hoje se encontra em outros países da Comunidade Britânica, como a Escócia, por exemplo.
Fonte: Sputnik Brasil.




