Na Colômbia, Aberlardo de la Espriella restabeleceu as relações com Israel, rompidas pelo ex-presidente Gustavo Petro em protesto contra as ações em Gaza. Ele também fez da Colômbia o segundo país a reconhecer a soberania israelense sobre as Colinas de Golã, medida tomada apenas pelos EUA.
Na Venezuela, Delcy Rodríguez restabeleceu laços consulares com Israel, no Chile, José Antonio Kast reinstalou adidos militares em Israel, posto que seu antecessor, Gabriel Boric, havia extinto, e, na Argentina, Javier Milei se autoproclamou "o presidente mais sionista do mundo".
Outras figuras alinhadas à direita, como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, e o senador e candidato a presidência do Brasil Flávio Bolsonaro (PL) também já se manifestaram como aliados de Tel-Aviv.
Enquanto para o lado israelense isso serve como uma porta para sair do ostracismo internacional, os países latino-americanos pensam em aproveitar o expertise de Israel em defesa, cibersegurança e inteligência artificial. Sobretudo, o teor ideológico dessa parceria fala ainda mais alto do que a sua praticidade.
Como conta Renata Alvares Gaspar, diretora acadêmica da Escola de Altos Estudos em Direito e Relações Internacionais (Edrin), o principal benefício dessa aproximação para Israel é político e diplomático. Segundo ela, o país ficou mais isolado internacionalmente após a guerra em Gaza, diante das críticas e acusações de violações do direito internacional, e o alinhamento com governos latino-americanos ajuda a reinseri-lo no cenário internacional. "Para Israel se vê um benefício direto, que é esse alinhamento, é trazer Israel de novo para o jogo", afirma.
Em contrapartida, os benefícios para os países latino-americanos não seriam necessariamente equivalentes aos obtidos por Israel, uma vez que a aproximação também responde a uma agenda ideológica. "A América Latina, de alguma forma, se alinha a Israel, esta da onda azul, primeiro por uma conexão ideológica, segundo por um mandato de Washington".
Para Karina Calandrin, professora de relações internacionais do Ibmec, o apoio a Israel também proporciona ganhos políticos domésticos aos líderes latino-americanos, ao atender aos interesses de grupos conservadores e evangélicos que integram suas bases eleitorais. Internacionalmente, a aproximação também corresponde aos interesses de Washington em fortalecer um de seus principais aliados no Oriente Médio.
No lado prático, há ainda possibilidades de cooperação comercial e técnica, sobretudo nos setores de defesa, monitoramento e segurança pública. Israel dispõe de tecnologias de geolocalização, vigilância e equipamentos de uso policial que podem interessar aos governos da região. No entanto, a professora ressalta que a aproximação política não significa, necessariamente, a ampliação imediata dessas parcerias.
"Pode ter, mas a princípio ele é mais retórico do que prático", afirma. A especialista cita a compra de equipamentos de empresas israelenses por forças de segurança brasileiras, como feito no governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo; desde 2023, a gestão investiu em armas e softwares israelenses para a Polícia Militar do estado, totalizando cerca de R$ 37 milhões.
Gaspar também pondera que a busca por tecnologias israelenses não deve ser tratada apenas como uma consequência da preocupação dos governos latino-americanos com a criminalidade. Segundo ela, a diferença está na forma como cada administração entende e combate o problema, reforçando uma convergência entre segurança pública e alinhamento com Washington.
A dúvida também fica se, no longo prazo, o estreitamento de laços entre Israel e a América Latina se manterá para além de transições políticas. Diferentemente da parceria histórica entre Washington e Tel Aviv, a aproximação entre governos latino-americanos e Israel depende, em grande medida, das afinidades ideológicas de seus líderes e do alinhamento com os Estados Unidos.
Para Gaspar, essa característica torna a relação mais vulnerável a mudanças eleitorais. Como pontuado, a aproximação atual está ligada à ascensão de governos de direita e conservadores na região, que compartilham posições políticas com o governo israelense. Uma mudança na orientação ideológica dessas administrações poderia, portanto, alterar o nível de cooperação.
"O alinhamento ideológico tem a ver com quem está no governo. Mudando o governo e mudando o alinhamento ideológico, com certeza não vai haver cooperação como a gente está vendo agora nessa onda azul".
Calandrin, por sua vez, destaca que a capacidade de influência dos Estados Unidos também é um fator nesta relação. Embora o apoio de Washington a Israel deva permanecer mesmo após a saída de Donald Trump da Casa Branca, a intensidade dos esforços para aproximar Tel Aviv de países latino-americanos pode mudar caso haja mudanças eleitorais no país, como as midterms marcadas para novembro.
A internacionalista pontua que Trump atribuiu um caráter pessoal a essa articulação, buscando ampliar o número de parceiros de Israel e reduzir seu isolamento internacional. De maneira parecida com que, em seu primeiro mandato, fez com países árabes com o Acordo de Abraão, como Emirados Árabes Unidos e Bahrein.
"Eu acredito que um próximo governo americano, mesmo que seja republicano, mas sem Trump, não tenha esse mesmo caráter por conta da figura de Donald Trump e do que ele assume pessoalmente para fazer", afirma a internacionalista. Nesse cenário, a continuidade dos vínculos regionais dependeria, assim, tanto da orientação da política externa estadunidense quanto das afinidades políticas dos governos latino-americanos.
Calandrin, ao abordar as eleições no Brasil, vê no fortalecimento do Partido Liberal e de setores mais alinhados a Israel e aos Estados Unidos um cenário de maior pressão sobre a política externa brasileira, mas não necessariamente uma mudança na condução das relações com Tel Aviv.
Mesmo que o Congresso Nacional assuma uma composição mais favorável a Israel, a formulação da política externa brasileira permanece concentrada no Poder Executivo, com participação central do Itamaraty e do corpo diplomático.
A especialista destaca que essa divisão limita a capacidade do Legislativo de determinar os rumos das relações diplomáticas do país. Embora deputados e senadores possam apresentar críticas, promover debates e pressionar o governo por meio das comissões de relações exteriores, decisões como o envio e o recebimento de embaixadores dependem do presidente da República.
"Apesar de termos comissões na Câmara e no Senado de relações exteriores, a formulação da política externa e a condução dela é muito mais ligada ao Executivo e, obviamente, ao Itamaraty, ao Ministério das Relações Exteriores, ao corpo diplomático, do que ao Legislativo".
Nesse sentido, Calandrin avalia que uma eventual permanência de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência poderia manter o atual nível de distanciamento diplomático em relação a Israel, mesmo diante de um Congresso majoritariamente alinhado às posições israelenses e estadunidenses. O Legislativo poderia ampliar a pressão política sobre o governo, mas não teria instrumentos para obrigá-lo a alterar decisões tomadas pelo Executivo.
"Então, não muda o grau das relações caso o presidente Lula se mantenha no poder, mesmo com o Congresso majoritariamente pró-Israel, pró-Estados Unidos, por conta do tipo de formulação de política externa que o Brasil tem."
Fonte: Sputnik Brasil.




