Análise: postura errática dos EUA empurra Canadá para UE, mas adesão carece de sustentação legal

A União Europeia convidou, no último mês de setembro, o Canadá a trabalhar para se tornar o primeiro "membro associado" do bloco, ressaltando a crescente proximidade do país em meio à deterioração das relações com os Estados Unidos.
"Precisamos urgentemente reimaginar nossas parcerias", declarou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao comparecer ao Parlamento Europeu em Estrasburgo, na França. "Eu gostaria de trabalhar com você [premiê Mark Carney] para abrir as portas para que o Canadá seja o primeiro membro associado da União Europeia."
Carney, por sua vez, afirmou que uma possível entrada representaria um passo para que o Canadá expanda seus horizontes econômicos, além de torná-lo menos vulnerável à coerção de outras nações.
Ottawa e Bruxelas já têm um acordo de livre comércio e, embora o documento não tenha sido aprovado por dez dos 27 Estados-membros da União Europeia, cerca de 90% do comércio entre o país e o bloco já é livre de tarifas.
Horas após o discurso de von der Leyen, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considerou a aproximação como um "ato hostil" e ameaçou impor "sérias cifras" tarifárias e até suspender seu comércio com a Europa.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas avaliam que a postura errática dos Estados Unidos com alguns de seus principais parceiros comerciais, como o Canadá e a União Europeia, aproxima Ottawa e Bruxelas. No entanto, a adesão canadense ao bloco europeu, ainda que como membro associado, carece de sustentação legal.
Ítalo Ribeiro, professor de geografia, analista político, mestrando em geografia na Universidade Estadual do Ceará (UECE), pesquisador em geografia política e geopolítica e fundador do Tabuleiro Geopolítico, comenta que a hegemonia de Washington passa por um processo de contestação, tornando as relações econômicas um instrumento de pressão política utilizado pela Casa Branca.
Ribeiro é categórico ao classificar o atual momento norte-americano como um "império em retração, em apodrecimento", explicando que momentos como esse sucedem uma agressividade para a tentativa de manutenção do status quo. O especialista explica que, em especial na década de 1990, os Estados Unidos levantavam a bandeira do mundo globalizado e interligado, algo que se assemelha muito mais às ações da China hoje.
Demetrius Pereira, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), afirma que a União Europeia é uma defensora do multilateralismo, o que cria rusgas com a atual administração de Washington.
Para Pereira, essa cruzada comercial da Casa Branca pode afastar os aliados não só economicamente, mas também politicamente, incluindo alianças em conjunto, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Ambos os especialistas entrevistados pelo Mundioka declararam que esse status de membro associado é uma novidade na União Europeia, sendo difícil dizer o que isso pode significar, como, por exemplo, se o Canadá gozaria de direitos como o Espaço Schengen.
Outro ponto trazido por Ribeiro é que a União Europeia aceita apenas membros que estejam no território europeu, requisito que o Canadá não preenche.
Ribeiro também admite que a União Europeia possui um mercado considerável, o que pode beneficiar o Canadá. No entanto, se as intenções de Ottawa forem substituir as vendas atualmente feitas a Washington, o governo de Carney sofrerá com as dificuldades logísticas impostas pelo oceano Atlântico.

Fonte: Sputnik Brasil.

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