É muito difícil explicar as enigmáticas razões por que um pênis não funciona. Todo homem inicia sua vida sexual com ejaculação precoce. E isso não é estranho, pois a combinação de um desejo intenso com a pouca experiência fazem com que as primeiras aventuras antecipem a ejaculação por simples ansiedade. Antes de seu primeiro encontro, o adolescente já dispõe de uma complexa rede de fantasias eróticas que serão importantes para o futuro desempenho. Essas fantasias giram sobre parâmetros universais, mas são diferentes em cada ser humano. Todo homem inventa uma história pessoal e própria para gozar.

Há alguns anos, um homem me contou, sem dar muita importância ao fato, que quando estava na cama com sua mulher, atingia o clímax depois de acariciar e massagear o pé de sua amada. Seria um fetichista se, para gozar, expulsasse a mulher e utilizasse o seu sapato. Mas não é o caso.

Com o prosseguimento da análise, foi possível entender melhor o aficionado por pés femininos. Quando ainda era pequeno, sua mãe, que era gravemente diabética, submeteu-se a várias cirurgias até a amputação de um pé. Mais tarde, ela morreu. Lembrou que nessa época, no começo da puberdade, suas primeiras masturbações tiveram como objeto uma de suas irmãs, a caçula, que aprendia dança clássica. Contou que, excitado, procurava no armário as sapatilhas dela para acariciá-las, do mesmo modo que hoje faz com os pés de sua mulher.
Foi possível entender que sua fixação por pés de mulher continha um pouco do amor prematuramente amputado por sua mãe. Revelava algo de sua história. Perdeu a mãe que perdera um pé. Foi uma situação traumática e difícil. Como cicatriz sobrou o desejo erotizado por pés de mulher. Poderia ter ocorrido o inverso e sua reação, como em muitos outros casos, ser de repulsa e rejeição por tal membro. A ejaculação precoce também é uma maneira de encenar uma história, cujo significado pode ser esclarecido após uma análise.

O método que usamos em psicanálise parte do princípio que todo sintoma, inclusive a ejaculação precoce, por mais contraditório que seja, ao mesmo tempo que incomoda, satisfaz e atende a outras circunstâncias ou solicitações que o protagonista ignora.

A ejaculação precoce seria uma manifestação adequada para quem considera que o ato sexual seja uma agressão à mulher ou ache preferível que ela não goze. É claro que um homem que sofre desse problema não formula conscientemente esse pensamento, mas é possível que tais idéias estejam em seu inconsciente e possamos trabalhá-las. Os meninos de cerca de 10 anos, próximos à puberdade, têm muita dificuldade em aceitar a sexualidade dos pais. O mais difícil de suportar é que a mãe se relacione e tenha prazer com o pai. A procriação, que é imprescindível para a continuidade, produz um grande conflito no ser humano por reunir extremos opostos: a mãe pura e assexuada e o sexo, perigoso, sujo e estranho à pureza materna. Alguns homens, durante sua vida sexual, vão tentar resolver esse drama.

A ejaculação precoce nega o prazer à mulher e transforma o ato sexual em uma inseminação. Nega o gozo feminino sem impedir a maternidade: se aceitamos que se ame um pé por conta de um acontecimento antigo e esquecido, esse outro procedimento é possível. Basta reconhecermos que em ambos impera a mesma lógica. A lógica do inconsciente que é o lugar onde residem os equívocos. É ali que se arma esse teatro do absurdo. 

Alberto Goldin é médico com formação em psicanálise pela Associação Psicanalítica Argentina, professor de teoria freudiana em instituições psicanalíticas argentinas e autor, entre outros livros, de Amores Freudianos, de onde foi extraído este trecho.