A Civilização Milenar da Reencarnação

Apesar das semelhanças da doutrina indiana com o Espiritismo, existem pontos em que elas diferem radicalmente.

Existem vários fatos históricos e literários que evidenciam a imortalidade da alma, a comunicabilidade dos Espíritos e a reencarnação - postulados que o Espiritismo veio a confirmar no século 19. Um dos testemunhos da reencarnação - conhecida por alguns como metempsicose - vem da índia, uma das civilizações mais antigas do planeta.

Com população de mais de um bilhão de pessoas, o país tem superfície territorial de quase 3.000.000 km2. A maioria dos indianos tem origem nos povos ários, que chegaram à índia entre 2.000 e 1.500 a.C. Com 400 línguas registradas, somente dezoito são oficialmente reconhecidas e difundidas nas várias regiões. O país se determina climaticamente pelas monções (durante oito meses do ano o clima é seco, e nos outros chove muito). O sânscrito é a escrita.
 
A história antiga se divide em quatro períodos: védico, épico, bramânico e búdico. A agricultura e a criação de gado sempre foram a base da economia do país, e a indústria se resume na fabricação de tecidos, porcelanas, objetos de marfim, vasos e estatuetas. O comércio esteve voltado para o Oriente Médio, Grécia e Roma. Nas artes, a arquitetura sempre foi bem desenvolvida, com suntuosos templos e palácios, e a escultura e a pintura se inspiravam na religião, nas tradições e na vida real. Na realidade religiosa da índia, a noção da reencarnação é lugar comum entre a população e pode-se dizer que a maioria do povo é reencarnacionista.

Além de muçulmanos (11%), cristãos (2%), sikhs (2,5%) e budistas (1%), os hindus aparecem com 83%, dividindo-se nas seguintes crenças: bramanismo (conhecido como hinduísmo), com princípios estabelecidos no Código de Manu; o budismo, a partir dos ensinamentos de Buda; e menção deve ser feita a Asoka (século 3 a.C.), um dos mais notáveis soberanos da índia, que reinou de 274 a 232 a.C.

Entre as obras mia conhecidas entre os indianos está a epopéia Mahâbhârata, o maior poema do mundo; nele, no 18º dia de uma batalha, Krishna discute com o guerreiro Arjuna sobre o significado da vida e da morte. A narrativa do 18º dia ficou conhecida como Bhagavad-Gita (a Sublime Canção da Imortalidade), compilada na forma atual entre os séculos 5 e 1 a.C.

Consultamos os dezoito capítulos dessa obra e suas centenas de versos, e é claro que, como o próprio nome indica, ele é um verdadeiro poema da imortalidade da alma e da reencarnação. Para ilustrar, transcrevemos somente cinco de seus versos: 1) Assim como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente passa da infância à juventude e à velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa para outro corpo. (Krishna, capítulo 2, verso 13); 2) Assim como alguém veste roupas novas, abandonando as antigas, a alma aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. (Krishna, capítulo 2, verso 22); 3) Alguém que nasceu com certeza morrerá, e após a morte ele voltará a nascer. (Krishna, capítulo 2, verso 27); 4) Antes de abandonar o corpo atual, se alguém for capaz de tolerar os impulsos dos sentidos materiais e conter a força do desejo e da ira, ficará em situação privilegiada e será feliz neste mundo (Krishna, capítulo 5, verso 23); 5) Após muitos nascimentos e mortes, aquele que tem verdadeiro conhecimento rende-se a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e de tudo o que existe (Krishna, capítulo 7, verso 19).

Em toda a literatura indiana há exemplos da imortalidade da alma e reencarnação, como constatamos também no Srimad Bhãgavatam, que são comentários de Sukadeva Gosvãmi aos Vedas, redigidos há cinco mil anos. Obra de quase trinta volumes (com tradução e comentários), anotamos só o seguinte verso, em que a lei de ação e reação (carma) está bem explícita: Portanto, como as atividades ímpias e invejosas causam um corpo no qual se sofre na vida seguinte, por que deveria alguém agir impiedosamente? [ ...] a pessoa invejosa deverá temer ser hostilizada por seus inimigos, nesta vida ou na próxima (Sukadeva Gosvãmi, canto 10, capítulo 1, verso 44).

Os indianos crêem na reencarnação, mas acreditam que as almas foram criadas felizes e perfeitas, e os erros praticados nas encarnações fizeram com que passassem a poder encarnar em corpos de animais. Essa possibilidade de transmigração de almas em corpos de animais é o que se chama de metem psicose. Os animais são venerados na índia porque eles acreditam na possibilidade de que eles sejam almas de antepassados. Segundo o Espiritismo, as almas são criadas simples e ignorantes e, através das encarnações, adquirem a progressão contínua, não sendo possível que uma alma humana reencarne no corpo de um animal.

Enquanto a metempsicose dos indianos está baseada na degradação das almas, a pluralidade das existências dos espíritas se funda na progressão contínua da mesma. Que cada um conclua qual doutrina é mais racional e lógica, e qual revela a bondade e justiça de Deus. Seria um contra-senso que almas criadas perfeitas viessem a cometer erros e retrogradar, pois isso evidenciaria que elas nunca foram "perfeitas". Mas o importante é registrar que a Lei da Reencarnação está presente na cultura indiana, ainda que de uma forma imprecisa, necessitando ser burilada e aperfeiçoada, e foi o que fez a Doutrina dos Espíritos no século 19.

Em toda a literatura indiana há exemplos da imortalidade da alma e reencarnação, como constatamos também no Srimad Bhãgavatam, que são comentários de Sukadeva Gosvãmi aos Vedas, redigidos há cinco mil anos.