Fernando chegou pontualmente à festa de Rafael, seu colega do primeiro ano de engenharia. Parecia animado. Conversava com todo mundo, contou a última piada ouvida na academia de musculação, falou do gol de pênalti do França. No jogo do domingo – era são-paulino roxo – e bebeu um copo de cerveja. Com o canto dos olhos, acompanhou durante alguns minutos os movimentos de Adriana, a garota mais bonita e disputada da classe. Tentou aproximar-se várias vezes, mas sempre perdia a parada: havia muitos jovens interessantes na festa. De nada valeria comprar roupas de grife tão caras e e esmerar-se no corte do cabelo: os outros também tinham tudo isso… e algo mais.
Examinou seu corpo: achou-se um pouco gordo e desajeitado. E se malhasse mais?! Será que era isso o que faltava? Tentou puxar conversa em alguns grupos, mas já ninguém escutava. Todos falavam ao mesmo tempo e a música era alta demais. Sentou-se a um canto, ao lado do Paulo, que dormia a sono solto, depois de uma provável bebedeira. Á sua frente, um grupinho passava o cigarro de maconha. Tirou o celular do bolso e ligou para casa. Avisou a empregada que chegaria tarde, pois a festa estava ótima. Despediu-se de todo mundo, explicando que tinha de passar em outra festa, de um amigo de infância – não podia faltar de jeito nenhum.
Na hora do beijo em Adriana, tentou olhar em seus olhos. Tempo perdido: ela escutava, elevada, os detalhes da última escalada artificial do Marcelo, o desportista número um da turma – adrenalina pura! Acenou mais uma vez para todo mundo, ligou seu carro importado e saiu rangendo os pneus. Parou numa loja de conveniência, em meio à agitação da turma que se reunia por lá, comeu tranquilamente um hot-dog. No dia seguinte, ninguém acreditou quando soube que ele fora encontrado num pronto-socorro, após tentativa de suicídio.
A história de Fernando mexeu com todo mundo. Seus pais, no aperto da tristeza, tentavam localizar alguma culpa: em que teriam falhado se lhe tinham propiciado tudo: a melhor escola, o clube mais seleto, as viagens mais disputadas, as roupas de marca, e, mais recentemente, os talões de cheque, os cartões de crédito, o celular e o carro? Os jovens colegas, estupefatos, tentavam pressumir alguma justificativa que soasse pelo menos um pouco lógica: alguma decepção amorosa? Não parecia que a admiração por Adriana fosse motivo suficiente para tal gesto de desespero. Não falara com ela mais do que uma ou duas vezes! Talvez estivesse drogado, pensavam eles…, mas todos sabiam que ele não se drogava…
O que seria, então? Os pais dos amigos, temerosos, buscavam possíveis alternativas para livrar-se de riscos. O que poderiam fazer mais ainda pelos filhos para que essa tragédia não batesse às suas portas?
A única que não estranhou, embora lamentasse profundamente a atitude de Fernando, foi o terapeuta que o acompanhava há semanas. Para ela, o jovem vinha confessando o desencanto pela vida, a falta de sentido do mundo, o "não saber pra que se vive". Ele tinha tudo ou não tinha nada? Era essa sua maior angústia. Viver conforme o padrão de sua família e de seu grupo parecia-lhe totalmente vazio. Viver de forma diferente ele não sabia… Era como morrer de sede no deserto, confessava ele durante as sessões.
Um ou mais na multidão
Se a angústia apertava, tolo procurava a melhor saída: ir ao shopping? Modelar os músculos? Encontrar os amigos para jogar conversa fora? Comer hambúrguer? Fazer joguinhos no computador? Assistir à TV? O que é que lhe faltava se tinha tudo? Sabia, no entanto, bem no íntimo, que nada do que possuía preencheria seu vazio interno. Mas carecia de maior reflexão. Não tinha nem a clareza nem a determinação suficientes para buscar além do já conhecido, do familiar, outros valores que não fossem aqueles segundo os quais havia sido moldado.
Fernando não podia, como tampouco seus pais o puderam, conceber a idéia de que somos sujeitos de nossa história e de que cabe a cada um a responsabilidade pela construção de um mundo melhor, não só para nós, como para todos os outros seres. Ele não conseguia associar o vazio que o angustiava com a falta de sentido de sua própria vida. Ele era um a mais, no meio de uma multidão, e tudo o que fizesse seria muito parecido com o que muitas outras pessoas tão iguais e ele também fariam. Seu padrão de vida não concebia realizações, apenas repetições.
A mesmice daquela vida -a aparentemente de tantos privilégios – provocava a cegueira típica dos que se predem às circunstâncias e se tornam incapazes de alçar um vôo que os remeta a outros horizontes e outras possibilidades. Fernando era uma construção sonhada pelos seus pais, que, por sua vez, haviam sido também sonhados por seus avós: ao nascer com tudo pronto, sem ter que lutar por nada, ele já estava, a priori, condenado ao malogrado sucesso daquele que pouco têm que se esforçar na vida.
Uma infância sem desafios, repleta de brinquedos, numa escola com promoção automaticamente garantida, ainda que sem nunhum empenho nos estudos, num grupo social protegido, qual uma redoma de cristal em meio a um mundo conturbado e injusto, deixava em Fernando a falsa impressão de que as coisas ruins estavam sempre "bem longe dele", como fazia questão de repetir nas sessões de terapia.
– Por que você não luta para abrir as portas? – perguntou-lhe a terapeuta, durante a última cessão.
– Todas elas estão abertas, – respondeu-lhe ele – Talvez eu precise fechar algumas para poder entrar…
– Por que você não luta para abrir as portas? – perguntou-lhe a terapeuta, durante a última cessão.
– Todas elas estão abertas, – respondeu-lhe ele – Talvez eu precise fechar algumas para poder entrar…
No momento em que um colega de Fernando telefonou à terapeuta para comunicar o fato, ela estava se preparando para conversar com os pais do jovem. Pensava numa estratégia para mobilizar aquela estrutura familiar, de modo que pudesse ajudar no processo de autoconhecimento de seu paciente. Estava certa, no entanto, de que encontraria muitas dificuldades, pois é difício pensar em mudanças quando tudo parece tão perfeito! Como falar de um vazio interno, quando tudo aparentemente está tão preenchido? Se eles tinham tudo, o que lhes faltava?
Lembrou-se da teoria da terapia familiar, fundamentada no fato de que o homem não é um ser isolado. Ele é, isto sim, um membro ativo e relativo de grupos sociais, e aquilo que sente como real depende de componentes tanto externos como internos. Fernando pertencia àquele contexto familiar e social que o influenciava e que era por ele também influenciado; por isso, a terapeuta pensou em falar desse contexto e das falsas ilusões que criamos para nós mesmos a respeito de nossas reais necessidades.
Quando recebeu a trágica notícia, ela estava refletindo, justamente, sobre como contar aos pais de Fernando a seguinte parábola de Ortega y Gasset: "Um homem, numa excusão pelo Pólo, andou durante todo um dia em direção ao Norte, fazendo os cães de seu trenó, ao verificar a posição relativa do lugar, para determinar sua latitude, percebeu, com grande surpresa, que estava muito mais ao Sul do que de manhã. Só então se deu conta de que, o dia inteiro, estivera avançando em direção ao Norte, sobre um imenso iceberg, que ia sendo deslocado para o Sul por uma corrente marítima.
A meta de sua viagem estava clara, os equipamentos eram os melhores, seu esforço, admirável. Mas a base sobre a qual se sustentava durante toda a travessia era tão radicalmente falsa, que o conduzia, com fatalidade, exatamente para o Pólo oposto".
