É preciso confiar no anjo da guarda

Recentemente fui entrevistado por uma repórter que queria saber minha opinião a respeito dos acidentes domésticos com crianças. Começei a listar os mais frequentes como quedas, queimaduras, intoxicações, afogamentos, sufocação etc. e, conforme fomos conversando, a lista de perigos e ameaças foi se tornando imensa.

Daí ela perguntou o que deveria ser feito para evitá-los. Caímos novamente numa lista sem fim de recomendações que foi me deixando angustiado, com uma sensação de ridículo por estar falando de coisa impraticáveis para seres humanos que não têm superpoderes. A tentativa de encontrar todas as respostas os perigos que ameaçam nossas crianças fez crescer em mim a consciência de que é impossível evitá-los completamente, e uma insegurança foi aumentando com a enumeração dos riscos.

Por fim, acho que não acrescentei nada além do que ela pudesse encontrar nos livros para pais ou nos Sites sobre como evitar acidentes domésticos, aliás, ajudei apenas a intensificar o clima de terror e insegurança.

No dia seguinte, ainda sob o desconforto da entrevista, me veio subtamente um pensamento meio maluco: o anjo da guarda! finalmente havia encontrado alguma saída para tamanha impotência. Sem dúvida, cada criança deve ter o seu. Do contrário, seria matematicamente impossível a sobrevivência na terra de um ser tão frágil e indefeso que se quer conta com instintos e habilidades como os dos bebês dos animais. Claro que é uma tarefa feita a várias mãos, porém, sem confiarmos nas forças que protegem a vida, não passaremos a atitude correta de coragem e auto - estima para nossos filhos.

Dando um exemplo concreto, imaginem dois pais diantes de seus filhos de 4 anos, que estão trepados numa jabuticabeira. O primeiro se encaminha tranquilamente e se posiciona numa atitude protetora passando confiança e orientando quanto aos limites seguros dessa experiência maravilhosa. O segundo corre em desespero, gritando: "você vai cair", e antes que ele possa fazer algo, a criança perde a autoconfiança, obedece as palavras proféticas do pai e cai.

Conheci um pastor que estava com um amigo consertando o telhado de sua casa. Apavorado, esse amigo viu o filho de 5 anos do pastor no topo da escada tentando se juntar aos dois. Ele então reuniu toda tranquilidade possível para avisar o pai, sem que este se assustasse e, por consequência, que também não amendrontasse a criança, que assim poderia perder o equilíbrio.

Mas qual foi a sua surpresa quando o pastor apenas olhor com ternura para seu filho e, sem dizer uma palavra, continuou o conserto. O menino perambulou por ali e depois desceu tranquilamente, em segurança. Quem me contou essa história foi o amigo do pastor, que estava convencido de que a confiança qeu o pai transmitiu ao filho envolveu a criança numa espécie de aura de proteção.

Não recomendo a ninguém tentar fazer o mesmo, apenas gostaria de ampliar a questão a proteção à criança. Não basta tornar o ambiente físico o mais seguro possível e comprar tudo que é recomendado. Não basta orientar sobre os perigos se não tivermos uma atitude baseada na confiança e tranquilidade. Caso contrário, estaremos alimentando na alma dos nossos filhos o medo, a insegurança e a angústia, "doenças" tão típicas da nossa época.

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