Reconheço que o título de meu artigo é forte e é capaz de causar desconforto. Mas os leitores podem acreditar que o mesmo surge de uma interrogação muito permanente, ou não é isso que deverá acontecer entre nós e nossos filhos? Ou seja: O que uma geração deve transmitir à seguinte para permitir-lhe abandoná-la?
Em primeiro lugar, quero ser onesto e lhes dizer que são respostas difíceis e complexas, individuais e específicas para cada ser humano. Dependem de como se olha a situação atual da família, que sabemos ter passado por mudanças marcantes em sua estrutura: o declínio da imagem do pai, a luta da mulher para sair de seu papel estereotipado de mãe e dona do lar - que, apesar de justo e gratificante, leva a um celibato feminino prolongado -, o maior números de casais separados, as novas famílias (monoparentais, homossexuais ou recompostas) e as dificuldades crescentes dos pais na educação dos filhos.
Muitos acham que tudo isso não é outra coisa que o sintoma de uma crise profunda da família moderna. Outros, nos quais me incluo, apesar dos problemas e conflitos, pensam que a família se torna hoje o único referencial e o único lugar onde somos acolhidos, onde damos e recebemos afeto. O sentimento de dívida e gratidão com a geração precedente deve existir, mas ele não deve impossibilitar que você também funde uma família.
O antigo embate entre a saudade do passado e a aceitação do presente acaba desfigurando o problema real: a tansmissão entre gerações se cumpre em função das crenças, dos valores e das histórias que constroem uma família.
O genial antropólogo francês Lévi-Strauss escreveu que não há aliança
conjugal sem "ruptura" com a família de onde se vem. Tem de ficar claro que estamos falando da ruptura simbólica. Não há ruptura possível sem a "transmissão parental" e não há transmissão sem a "conjugalidade fundadora" da função parental.
conjugal sem "ruptura" com a família de onde se vem. Tem de ficar claro que estamos falando da ruptura simbólica. Não há ruptura possível sem a "transmissão parental" e não há transmissão sem a "conjugalidade fundadora" da função parental.
Temos todos uma tarefa. Em primeiro lugar, devemos nos interrogar qual é, afinal, o papel da família. Precisamos proucurar saber o que a família pode ou não transmitir aos filhos para que eles possam ser livres e capazes de optar entre duas palavras curtas, porém contundentes: sim e não.




