Especialistas discutem diferenciações semânticas entre os termos puberdade, adolescência e juventude, mas, do ponto de vista vivencial, esse questionamento não faz sentido. Quem tem memória sabe: a adolescência inaugura-se com a descoberta da solidão.
Em algum momento, a gente se dá conta de que há um mundo interno, povoado de emoções, lembranças e anseios, a que nenhum outro tem acesso. Pior: percebemos que esse acervo é peculiar, diferente do que habita o melhor amigo ou a mãe; e não é comunicável, porque não é possível traduzí-lo em palavras. Essa percepção de que cada indivíduo é único mobiliza um sentimento de irreparável solidão.
A criança não faz separação entre ela e o outro: para se esconder, fecha os olhos. Mas o adolescente percebe a barreira imposta pela precariedade da comunicação e luta para escapar desse sentimento - até ser obrigado a reconhecer que esse é um atributo humano do qual não se escapa, embora existam caminhos para nos distrair dele.
A criatividade e eficiência dos truques dependem do repertório de cada um. Os primeiros recursos são necessariamente pobres: criar grupos de pertinência. "Sou da turma do boné para trás. Nós, os de boné para trás, somos iguais - e isso nos identifica e nos faz irmãos" (Nada grave, se não se transformar em: "Nós, os de boné para trás, somos superiores aos de boné pra frente ou aos sem boné, que são nossos inimigos e devem ser eliminados").
Depois, inventamos mágicas mais eficientes, como a relação amorosa (tal vez a mais eficaz de todas as tentativas de fugir da solidão - pois oferece momentos de acolhimento e compreensão, ilusórios ou não). "Nascemos um para o outro, somos feitos no mesmo molde. Nunca nos sentiremos sós enquanto estivermos juntos" (Nada grave, se não se transformar em: "Você é a metade da minha laranja, sem você não sou ninguém" - pois um relacionamento verdadeiro não se faz com duas meias-pessoas e o medo da ruptura pode congelar o casal na mesmice).
Mas é também na adolescência que se desenvolve a capacidade dc efetuar operações intelectuais abstratas. Com a passagem da lógica concreta à lógica formal, o pensamento liberta-se da experiência imediata, o que permite a construção de sistemas e teorias abstratas, embora ainda permaneça um egocentrismo intelectual, que gera a onipotência do pensamento ("Os adultos não mudam o mundo porque não querem").
A melhor fase para influenciar uma característica é a etapa em que ela aparece ou tem hegemonia. Portanto, a adolescência é o momento ideal para o florescimento de valores morais como a tolerância pelo diferente, o amor à justiça, o sentimento de solidariedade e compaixão. Assim, para compensar o sentimento de solidão do jovem o meio mais eficiente é a participação em projetos que reafirmem valores significativos e permitam atuar o senti mento de solidariedade.
Em vez de lamentar de braços cruzados a alienação dos jovens, deveríamos ajudá-Ios a encontrar esse caminho.
Lidia R. Aratangy é terapeuta de casais e escritora, autora de Tesouros da Juventude (Ed Olho D'Água), Sexualidade - A Difícil Arte do Encontro (Ática), Desejos da Convivência (Ed. Gente), entre outros livros.




