Quando as portas corrediças controladas por computador de súbito se abriram, revelando a já familiar câmara escura, Eshe fez exatamente o que se esperava dela depois de todos aquelas extenuantes semanas de treinamento.
Sem hesitar - e por certo contato com a recompensa que estava ciente de receber, tendo em vista seu excelente desempenho nos treinos - ela se jogou para dentro do recinto, dirigindo-se a toda velocidade à parede oposta. Estava pronta para exibir suas habilidades.
O teste começou no momento em que Eshe cruzou um feixe de luz inflravermelha em uma fresta posicionada diretamente em sua rota de corrida. A abertura, ladeada por dois pequenos braços metálicos em forma de T, que se projetavam de cada lado da câmera, definia uma fenda através da qual Eshe tinha de passar para chegar ao outro extremo. Sua tarefa estava longe de ser trivial: sob total escuridão ela tinha de estimar o diâmetro da abertura, o mais rápido possível e em uma única tentativa.
Para tornar as coisas mais complicadas e interessantes, o tamanho da abertura variava eletronicamente a cada teste. Incapaz de ver as barras, Eshe tinha apenas um meio de atingir sua meta: contar inteiramente com seu requintado tato. Supreendentemente, mesmo quando o diâmetro da fresta variava apenas poucos milímitros, Eshe era capaz de descriminar de maneira correta em 90% das tentativas se aquela era mais estreita ou larga tátil em escassos 150 milissegundos, tocando as estremidades das duas barras apenas com as pontas dos longos e proeminentes pêlos que brotam dos dois lados de sau face (vibrissas).
Numa perspectiva humana, o truque de Eshe não era um feito desprezível. Qualquer um que estivesse tentando resolver tarefa similar utilizando bigode ou barba teria falhado estrondosamente. Mas Eshe é uma rata, e a base de cada uma de suas vibrissas tem uma densidade muito alta de sensores periféricos especializados, conhecidos como mecanorreceptores, que traduzem os principais atributos dos estímulos táteis para uma linguagem que o cérebro consegue entender: eletricidade.
Nos ratos, bem como nas pessoas, esses sinais elétircos são levados por uma série de nervos periféricos localizados em todo o corpo até diversas estruturas cerebrais interconectadas, formando um vasto circuito neural. Conhecido como sistema somatossensorial, este circuito é responsável por nosso amplo repertório de sensações táteis, além de contribuir para a gênese de nossa experiências perceptuais mais íntimas: o próprio senso de autoconsciência.
No entanto, exatamente como o cérebro traduz pulsos elétricos em percepções tão refinadas e variadas é um grande quebra-cabeça e, há muito tempo, um Santo Graal da pesquisa cerebral. Decifrar esse código neural é abrir as portas para a compreenção da essência de quem somos. Nossas habilidades de falar, amar, odiar e perceber o mundo ao redor, bem como nossas memórias, sonhos e mesmo a história de uma ifinidade de pequenos sinais elétricos que se espalham por todo o cérebro, como uma tempestade varre o céu em uma noite de verão.




