GESTOS INVOLUNTÁRIOS BRUSCOS
A síndrome de Gilles de la Tourette (SGT) é um transtorno neuropsiquiátrico definido pela presença de tiques motores e vocais. Geralmente começa com um piscar de olhos. Aos poucos vai se estendendo para outras partes do corpo, com uma variedade de repetições que mudam de uma pessoa para outra. A doença fica caracterizada quando esses movimentos involuntários passam a ocorrer com freqüên cia e desconfortam. Inicia-se, em geral, dos dois aos 15 anos e tende a desaparecer com o tempo.
Os tiques nervosos afetam pelo menos 1% da população mundial. Pesquisadores da Universidade de Yale (EUA) desenvolveram há menos de uma década uma teoria, segundo a qual, a origem da SGT seria determinada por interação entre alterações genéticas e fatores de risco externo. Situações de ansiedade e estresse seriam os “gatilhos” para o início dos sintomas.
O diagnóstico é baseado na manifestação dos tiques, ao vivo, diante do médico, ou por meio de filmagem. “O tratamento com medicamentos é indicado apenas quando o caso resulta em sofrimento e interferência na vida do paciente”, pondera a psiquiatra Ana Gabriela. São usados remédios como os neurolépticos (inibidores das funções psicomotoras que resultem de agitação ou excitação).
A psicoterapia é indicada para o portador da síndrome de Tourette para que ele reorga nize os movimentos repetidos a seu favor e também recupere a auto-estima, eventualmente abalada pelas reaçõe s aos tiques em ambientes públicos (escola, trabalho ou situações sociais).
NEM TODO MOVIMENTO REPETITIVO É TIQUE E NEM TODO TIQUE SIGNIFICA SÍNDROME DE TOURETTE
Outra técnica utilizada é a de reversão de hábitos, que tem se revelado útil para melhorar o impacto social que os tiques nervosos podem causar, de acordo com a psicóloga Sonia Borcato, do Protoc. A pessoa treina com o terapeuta tiques alternativos. Assim, quem fazia um gesto obsceno ou gritava, ao sentir o impulso, pode substituí-lo por uma passada de mão no cabelo, por exemplo.
Tremedeira que não incomoda
“Não me lembro exatamente desde quando convivo com os tiques, mas faz bastante tempo. O meu tique nervoso é uma espécie de tremedeira que dura mais ou menos um segundo. É muito rápido e, às vezes, dou um pulo ou levanto uma perna ou um braço. Isso geralmente provoca risos, mas também estimula conversas.
O TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) é uma doença crônica, mas que pode ser controlada. Como o próprio nome sugere, ela é determinada por comportamentos obsessivos e compulsivos. A obsessão seria, por exemplo, a idéia de que uma prateleira precisa estar com os objetos alinhados para estar arrumada e a compulsão, a iniciativa de ajustar a posição dos enfeites toda vez que um deles sai milímetros do lugar.
A SÍNDROME DE TOURETTE ESTÁ PRESENTE EM UM TERÇO DOS CASOS DE TOC
Estima-se que 3% das pessoas apresentem o TOC, principalmente crianças. A doença costuma surgir no início da puberdade em meninos e no final da adolescência em meninas. Mas isso não é uma regra. Diferentemente do tique nervoso, a repetição das ações não é involuntária, mas sim determinada por uma idéia recorrente da qual a pessoa não consegue se livrar.
Ao contrário dos portadores de tiques nervosos, cujas opções clínicas são limitadas, pessoas com diagnóstico de TOC têm um largo espectro de medicamentos, prescritos de acordo com a gravidade do quadro. São basicamente antidepressivos em doses maiores do que aquelas utilizadas para depressão.
O problema é que não repetir o comportamento ou pensar sobre ele gera ansiedade. Eis, então, a segunda fase da terapia: ensinar a pessoa a lidar melhor com a sensação ansiosa causada pela ausência da repetição. Ana Gabriela afirma que a experiência e os estudos têm demonstrado que com o tratamento combinado (medicamento e psicoterapia), durante um a dois anos ininterruptos, o portador da doença tem mais chances de não apresentar recaídas.
Neurose por arrumação sob controle
“Aos 12 anos, percebi que tinha uma neurose incomum com arrumação. Era a minha marca registrada. Tinha fixação enorme por simetria e objetos milimetricamente posicionados. Até hoje percebo, por graus mínimos de alteração, se alguém mexeu nas minhas coisas. Eu me sentia aliviada após esses rituais. Nos dias em que estou mais ansiosa, repito mais movimentos e também lavo muito as mãos. Comecei a fazer psicanálise aos 16 anos por causa de depressão e, na ocasião, descobri que tinha transtorno bipolar. O TOC aparecia na fase de mania dessa doença, oposta à etapa depressiva. Hoje tomo um modulador de humor e controlo mais as repetições, porque aprendi a reconhecer o limiar entre os estágios. Também passei a conter mais o tique nervoso de balançar a perna. Foi ótimo recuperar o controle sobre o meu corpo.” Letícia Filizzola, 20 anos,estudante universitária, de São Paulo (SP).
