O que é síndrome de Gilles de la Tourette

Alguns riem, outros se assustam e a maioria estranha. Pessoas com comportamentos incomuns precisam aprender cedo a conviver com seus problemas. O que poucos sabem é que tiques nervosos e hábitos obsessivos são sintomas de doenças diferentes. Muitas vezes — em um terço dos casos — as reações se manifestam simultaneamente, mas, ainda assim, por motivos distintos.
 
Movimentos involuntários, como gestos bruscos, grunhidos, tremeliques, arremedos e estalidos com a boca, estão associados a um distúrbio neurológico denominado Síndrome de Gilles de la Tourette. Já manias compulsivas, como lavar as mãos toda hora, apagar e acender luzes, trancar portas várias vezes ou manter objetos sempre alinhados, indicam a existência do que os médicos convencionaram chamar de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC).
 
São distúrbios crônicos de origem genética que não afetam o raciocínio ou as habilidades físicas do doente, mas comprometem, e muito, a auto-estima das pessoas. Entenda a diferença entre ambos e saiba como tratá-los.

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GESTOS INVOLUNTÁRIOS BRUSCOS

A síndrome de Gilles de la Tourette (SGT) é um transtorno neuropsiquiátrico definido pela presença de tiques motores e vocais. Geralmente começa com um piscar de olhos. Aos poucos vai se estendendo para outras partes do corpo, com uma variedade de repetições que mudam de uma pessoa para outra. A doença fica caracterizada quando esses movimentos involuntários passam a ocorrer com freqüên cia e desconfortam. Inicia-se, em geral, dos dois aos 15 anos e tende a desaparecer com o tempo.

Os tiques nervosos afetam pelo menos 1% da população mundial. Pesquisadores da Universidade de Yale (EUA) desenvolveram há menos de uma década uma teoria, segundo a qual, a origem da SGT seria determinada por interação entre alterações genéticas e fatores de risco externo. Situações de ansiedade e estresse seriam os “gatilhos” para o início dos sintomas.

 
Uma seqüência de tiques, assim, funciona como descarga da tensão acumulada. “Discussões com os pais, exames escolares e situações públicas costumam desencadear essas reações involuntárias”, afirma Ana Gabriela Hounie, vice-coordenadora do Projeto Transtorno do Espectro Obsessivo-Compulsivo (Protoc), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

O diagnóstico é baseado na manifestação dos tiques, ao vivo, diante do médico, ou por meio de filmagem. “O tratamento com medicamentos é indicado apenas quando o caso resulta em sofrimento e interferência na vida do paciente”, pondera a psiquiatra Ana Gabriela. São usados remédios como os neurolépticos (inibidores das funções psicomotoras que resultem de agitação ou excitação).

A psicoterapia é indicada para o portador da síndrome de Tourette para que ele reorga nize os movimentos repetidos a seu favor e também recupere a auto-estima, eventualmente abalada pelas reaçõe s aos tiques em ambientes públicos (escola, trabalho ou situações sociais).

 
É o que propõe a psicologia do comportamento: explorar positivamente os tiques em atividades como tocar bateria, que requer batidas repetidas, ou artes marciais que trabalham também com movimentos fortes e ritmados. “É um modo de canalizar criativamente os trejeitos que poderiam atrapalhar o paciente em outras circunstâncias”, acredita a psicóloga Regina Wielenska, de São Paulo.

NEM TODO MOVIMENTO REPETITIVO É TIQUE E NEM TODO TIQUE SIGNIFICA SÍNDROME DE TOURETTE


Outra técnica utilizada é a de reversão de hábitos, que tem se revelado útil para melhorar o impacto social que os tiques nervosos podem causar, de acordo com a psicóloga Sonia Borcato, do Protoc. A pessoa treina com o terapeuta tiques alternativos. Assim, quem fazia um gesto obsceno ou gritava, ao sentir o impulso, pode substituí-lo por uma passada de mão no cabelo, por exemplo.
 
“É importante lembrar que os tiques nervosos não são voluntários ou propositais e o treino resulta em menor repercussão para o paciente”, ressalta a especialista do Protoc.

Tremedeira que não incomoda


“Não me lembro exatamente desde quando convivo com os tiques, mas faz bastante tempo. O meu tique nervoso é uma espécie de tremedeira que dura mais ou menos um segundo. É muito rápido e, às vezes, dou um pulo ou levanto uma perna ou um braço. Isso geralmente provoca risos, mas também estimula conversas.
 
Uma vez fui ao hospital e a médica disse que minhas reações não eram nada ruins e que, se não me causasse muito incômodo, não precisaria nem tratar. Nunca me incomodei com o meu tique, ele é algo divertido, me ajudou até a fazer amigos algumas vezes (risos). Não me importo com o estranhamento alheio, meu tique é parte do que sou. Criei, inclusive, uma comunidade na internet. ‘Eu amo os tiques do Renato’. Tem 13 membros.” Renato Miranda, 17 anos, estudante universitário, de Vila Velha (ES).
 
HÁBITOS OBSESSIVOS E COMPULSIVOS

O TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) é uma doença crônica, mas que pode ser controlada. Como o próprio nome sugere, ela é determinada por comportamentos obsessivos e compulsivos. A obsessão seria, por exemplo, a idéia de que uma prateleira precisa estar com os objetos alinhados para estar arrumada e a compulsão, a iniciativa de ajustar a posição dos enfeites toda vez que um deles sai milímetros do lugar.

 
Motivado por uma sensação de alívio imediato, o indivíduo fica refém do pensamento e não consegue conter o impulso de agir de forma repetitiva. Assim como os tiques, o TOC pode surgir por fatores genéticos ou, então, fatores externos, como o estresse, a morte de alguém ou eventos marcantes.

A SÍNDROME DE TOURETTE ESTÁ PRESENTE EM UM TERÇO DOS CASOS DE TOC


Estima-se que 3% das pessoas apresentem o TOC, principalmente crianças. A doença costuma surgir no início da puberdade em meninos e no final da adolescência em meninas. Mas isso não é uma regra. Diferentemente do tique nervoso, a repetição das ações não é involuntária, mas sim determinada por uma idéia recorrente da qual a pessoa não consegue se livrar.
 
É uma doença que se agrava com o tempo, por isso, os pais devem estar muito atentos às atitudes obsessivas dos filhos, tomando cuidado para não confundilas com birras ou manias temporárias. Em média, o tempo entre o aparecimento dos primeiros sintomas e a procura de tratamento é de 10 anos, o que pode ser trágico, uma vez que a criança passa a se sentir culpada por irritar os pais com hábitos incomuns, que chegam a comprometer as tarefas escolares e domésticas dos pequenos.

Ao contrário dos portadores de tiques nervosos, cujas opções clínicas são limitadas, pessoas com diagnóstico de TOC têm um largo espectro de medicamentos, prescritos de acordo com a gravidade do quadro. São basicamente antidepressivos em doses maiores do que aquelas utilizadas para depressão.

 
O tratamento também inclui obrigatoriamente a psicoterapia. Segundo a psiquiatra Ana Gabriela Hounie, do Protoc, a terapia comportamental trabalha o TOC em duas frentes. Na primeira, trabalham-se os rituais propriamente ditos. “O terapeuta mostra ao paciente a falta de sentido em pensamentos obsessivos como, por exemplo, a idéia de que ligar e desligar a luz cinco vezes evitará a morte de alguém”. Ele deve conscientizar-se de que os rituais decorrentes da obsessão não têm razão de ser.

O problema é que não repetir o comportamento ou pensar sobre ele gera ansiedade. Eis, então, a segunda fase da terapia: ensinar a pessoa a lidar melhor com a sensação ansiosa causada pela ausência da repetição. Ana Gabriela afirma que a experiência e os estudos têm demonstrado que com o tratamento combinado (medicamento e psicoterapia), durante um a dois anos ininterruptos, o portador da doença tem mais chances de não apresentar recaídas.

Neurose por arrumação sob controle


“Aos 12 anos, percebi que tinha uma neurose incomum com arrumação. Era a minha marca registrada. Tinha fixação enorme por simetria e objetos milimetricamente posicionados. Até hoje percebo, por graus mínimos de alteração, se alguém mexeu nas minhas coisas. Eu me sentia aliviada após esses rituais. Nos dias em que estou mais ansiosa, repito mais movimentos e também lavo muito as mãos. Comecei a fazer psicanálise aos 16 anos por causa de depressão e, na ocasião, descobri que tinha transtorno bipolar. O TOC aparecia na fase de mania dessa doença, oposta à etapa depressiva. Hoje tomo um modulador de humor e controlo mais as repetições, porque aprendi a reconhecer o limiar entre os estágios. Também passei a conter mais o tique nervoso de balançar a perna. Foi ótimo recuperar o controle sobre o meu corpo.” Letícia Filizzola, 20 anos,estudante universitária, de São Paulo (SP).

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