Avanço do PL e surpresa na eleição presidencial: analistas veem revés para campo progressista

"Confesso que estava convencido de que ia ganhar as eleições em primeiro turno". Assim o presidente Lula abriu o discurso após a confirmação do segundo turno das eleições no Brasil. Porém, diferentemente de 2022, o petista não larga na primeira posição e viu uma diferença de votos superior a dois milhões. Mesmo assim, prometeu convencer os mais de 33 milhões de brasileiros que não compareceram aos locais de votação neste domingo (4).
Já Flávio Bolsonaro, que liderou o pleito, disse que o resultado mostra que a palavra de ordem no Brasil é "mudança". Ao conversar com a imprensa em Brasília, o candidato do PL ainda prometeu reduzir impostos e acabar com a reeleição. "Fiquei feliz com a quantidade de brasileiros que foram às urnas. É o fim da era do PT, está decretada a mudança no país", afirmou.
Para além do pleito presidencial, uma das eleições mais surpreendentes das últimas décadas terminou com governadores eleitos em primeiro turno em 20 estados, um número recorde, e ainda o avanço sem precedentes do PL: 121 das 513 cadeiras na Câmara dos Deputados e conquistar mais 19 no Senado, somando o total para 28, o segundo maior número de um partido desde a redemocratização.
O doutorando em ciências sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e professor de direito constitucional da Universidade Cândido Mendes, Victor Escobar David, afirma à Sputnik Brasil que, diferentemente do que apontavam as pesquisas, houve um grande crescimento das candidaturas de direita na reta final da campanha.
Para o especialista, o momento atual é ruim para Lula conquistar a reeleição, que esperava conquistar um novo mandato já no primeiro turno e, caso isso não se concretizar, ao menos largar na dianteira para o pleito suplementar. Aliado a isso, o professor de direito constitucional cita um fenômeno que tem se consolidado cada vez mais no Brasil: o nível acima da polarização. "Seria uma calcificação do eleitorado. Temos o eleitorado do Lula, o eleitorado do Bolsonaro e o que estaria em disputa seria um percentual de mais ou menos 2% das pessoas que votam. Mas o resultado mostrou que essa parcela já parece ter migrado para a campanha do Flávio", acrescenta.
Apesar disso, David também vê fatores importantes que podem contribuir para uma virada ou não do presidente Lula. "Continuo acreditando que a votação do Flávio Bolsonaro acaba sendo não tão entusiasmada como foi na comparação com o pai [o ex-presidente Jair Bolsonaro]. E talvez, como as eleições já terminaram nesses estados-chave, existe a possibilidade de haver uma desmobilização a partir dos governadores, senadores e deputados já eleitos, até porque para eles, o pleito já terminou", resume.
A cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, lembra à Sputnik Brasil que há possibilidade de o presidente Lula "conquistar os votos de Augusto Cury e Ronaldo Caiado" que ainda não foram para Flávio Bolsonaro. Juntos, os candidatos do Avante e do PSD obtiveram seis milhões de votos.
Já em relação ao Congresso Nacional, a especialista acredita que a composição das duas casas legislativas ficou ainda mais conservadora quando comparada às eleições de 2022. Conforme Goulart, o fenômeno não foi causado por uma redução "expressiva" dos parlamentares de esquerda, mas sim pela expansão do PL dentro da própria direita.
O doutorando em ciências sociais da UFRRJ acrescenta ainda que a sigla de Flávio Bolsonaro conseguiu tomar o espaço principalmente do centrão, já que, segundo ele, em pleitos anteriores partidos como PP, União Brasil e Republicanos conseguiam mobilizar eleitores bolsonaristas, algo que não se concretizou tanto neste ano. "Vejo que essa direita bolsonarista migrou para o PL, que é o grande vencedor das eleições de 2026 no Brasil, sem dúvidas", concluiu.

Fonte: Sputnik Brasil.

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