Retorno da Venezuela ao Mercosul chancelaria intervenção dos EUA, avaliam analistas

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, declarou na última quarta-feira (23) que defende o fim da suspensão da Venezuela no Mercosul. A fala do líder de Assunção foi feita na Assembleia Geral da ONU, diante de diplomatas de todo o mundo.
A Venezuela foi suspensa do Mercosul em dezembro de 2016 por não respeitar as normas comerciais impostas pelo grupo, além de falhar em cumprir os prazos designados no protocolo de adesão. Em agosto de 2017, uma nova suspensão foi determinada pelos países da instituição, baseada no Protocolo de Ushuaia, em uma suposta ruptura da ordem democrática.
Entre 2017 e hoje, muita coisa aconteceu dentro do Mercosul: líderes como Mauricio Macri e Michel Temer deram lugar a Javier Milei e Luiz Inácio Lula da Silva; o prometido acordo com a União Europeia saiu do papel após décadas; e a Bolívia, por sua vez, teve a entrada aprovada no grupo sul-americano.
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas avaliam que uma reintegração da Venezuela ao Mercosul poderia ser lida como uma chancela das nações do continente à intervenção realizada por Washington em Caracas, uma normalização regional do país, quase dez meses após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.
Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), conta que esteve no final de agosto no parlamento do Mercosul, onde os membros paraguaios já suscitavam a volta da Venezuela ao grupo.
Ainda segundo a especialista, os parlamentares, sobretudo brasileiros e uruguaios, eram contra a ideia e defendem que Caracas deve passar por eleições democráticas diretas, sem a intervenção dos Estados Unidos, para que um retorno ao grupo sul-americano possa ser discutido.
Na visão da especialista, o Paraguai propõe o retorno venezuelano por assistir à influência dos Estados Unidos no país caribenho. Além de Assunção, Buenos Aires também mantém um alinhamento quase que automático com Washington, pontos que não favorecem o Mercosul.
Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec no Distrito Federal, explica que o retorno de Caracas ao Mercosul representaria ter acesso a uma rede maior de integração comercial com os vizinhos sul-americanos e ajudaria a diversificar parcerias em um momento de reconstrução dependente dos Estados Unidos.
Esse retorno ao Mercosul, no entanto, não seria simples ou automático. Galvão conta que os anos de suspensão da Venezuela do Mercosul afastaram Caracas da evolução normativa do grupo, necessitando adequações às novas regras comerciais e institucionais que se acumularam neste período.
A fala de Peña, pedindo o retorno da Venezuela ao Mercosul, deve ser lida como uma tentativa de normalizar a conjuntura política local, ao menos é o que acredita Bressan. Para a professora, os Estados Unidos não precisam de um país alinhado no grupo para exercer sua influência no continente sul-americano.
Galvão concorda com Bressan e não vê evidências que indiquem um dedo dos Estados Unidos nas falas de Peña, apesar da proximidade do presidente paraguaio com a Casa Branca. Na visão do especialista, há uma convergência de interesses entre Assunção e Washington nesse assunto.
Bressan entende que a maior dificuldade do grupo sul-americano é encontrar uma convergência de ideias, que vai muito além de direita e esquerda. Nesse contexto de falta de sintonia, a influência da Casa Branca na região é apenas mais um ingrediente.
Galvão destaca a capacidade do Mercosul de sobrevivência a partir das políticas implementadas por meio de consenso. No entanto, esse formato faz com que o grupo seja lento e tenha dificuldades de aprofundamento.
A depender do candidato que vença as eleições brasileiras de outubro, Bressan defende que a forma de se construir relações diplomáticas regionais deve mudar drasticamente.

Fonte: Sputnik Brasil.

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