'Direito internacional não tem sido cumprido', diz analista após diagnóstico de Putin

Em seu discurso, o líder russo defendeu a construção de uma nova ordem mundial baseada em maior equilíbrio entre diferentes centros de poder e afirmou que países do "Leste e Oeste", "Norte e Sul" terão, mais cedo ou mais tarde, de chegar a um entendimento sobre seus princípios.
Ao abordar o papel das instituições multilaterais, Putin defendeu uma reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) para adequá-la à atual configuração internacional e criticou o que considera uma influência desproporcional dos países ocidentais. O presidente russo também afirmou que a influência do Ocidente está diminuindo e que a Rússia ainda é vista por parte desses países como um império que deveria ser fragmentado.
Giovana Branco, doutoranda em ciência política da Universidade de São Paulo (USP), avalia que o presidente russo retomou elementos em seu discurso que precedem 2022, quando de fato iniciou-se o conflito com a Ucrânia. Putin fez uma reconstrução do cenário até o momento citado, evidenciando que "países da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] teriam passado uma série de linhas vermelhas".
De acordo com a analista, a compreensão de que a Rússia responde a uma agressão prévia do Ocidente é clara em Moscou.
O presidente russo também direcionou as declarações para temas como inteligência artificial, segurança internacional e o legado da União Soviética.
Para Ana Prestes, analista internacional e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), as afirmações do presidente russo estão em consonância com avaliações feitas por outros líderes mundiais, como o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente chinês, Xi Jinping.
Na sua avaliação, os governos têm apontado para uma crise da estrutura de governança global construída após a Segunda Guerra Mundial, da qual fazem parte a ONU e outros organismos multilaterais.
Somando ao comentário, Ricardo Cabral, professor de história e especialista em história militar e conflitos internacionais, avalia que o discurso de Putin leva em conta que as instituições criadas após a Segunda Guerra Mundial estão esgotadas diante das transformações no cenário global. Enquanto o sistema da ONU mantém princípios relevantes, ainda está "fortemente ultrapassado" em relação às necessidades atuais.
Putin, durante o discurso, se referiu, sobretudo, ao Conselho de Segurança da ONU. Segundo o especialista, o órgão é "completamente anacrônico", uma vez que as representações têm peso desproporcional ao papel dos países no cenário global.
O analista destaca ainda que a ordem internacional foi estruturada em um contexto de hegemonia dos Estados Unidos, mas que Washington deixou de exercer esse papel de forma absoluta.
Durante o seu discurso, Putin enfatizou que o mundo precisa de tempo hábil para desenvolver regras e diretrizes sobre o uso da IA.
Para Prestes, "a questão da inteligência artificial é a fronteira da tecnologia", onde também se dá a disputa entre as potências. Recentemente, discursos de Xi Jinping e de Trump também expressaram alguma preocupação em relação à possível perda de controle sobre a tecnologia, assim como ressaltado por Putin hoje, que falou sobre perigos e riscos da ferramenta.
A analista recorda, ainda, que o líder russo falou sobre as habilidades humanas. Em sua fala, Putin destacou a capacidade humana sobre a inteligência artificial, em especial para orientar decisões militares: um soldado soviético salvou o mundo da guerra nuclear, "se [houvesse] uma inteligência artificial em seu lugar, as coisas poderiam ter terminado de forma bem diferente".
Segundo Cabral, quando o assunto da tecnologia está relacionado ao meio militar, "os limites são amplamente desconhecidos". A IA, explica, identifica padrões, ameaças iminentes e calcula o risco, mas não leva em conta fatores que não entram na equação e podem colocar uma série de vidas em risco.

Fonte: Sputnik Brasil.

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