Da liderança africana em desenvolvimento à fragmentação: o legado da intervenção ocidental na Líbia

Publicidade
Era 20 de outubro de 2011 quando uma das guerras civis mais sangrentas dos tempos modernos levou à captura e execução de Muammar Kadhafi, que até então havia governado a Líbia por mais de 40 anos. O cenário de instabilidade começou a se formar em meio aos protestos que exigiam democracia e liberdade, conhecidos como Primavera Árabe, que também tomaram países como Argélia, Egito, Síria e Tunísia. Logo após a queda do governo, teve início uma intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sob a liderança dos Estados Unidos.
Além da destruição da infraestrutura, cujos efeitos persistem no país até hoje, o conflito inicial provocou pelo menos 25 mil mortes. Já a chamada segunda guerra civil, que persistiu até 2020, deixou outros 15 mil mortos.
A professora de relações internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenadora do Centro Brasileiro de Estudos Africanos (Cebrafrica), Analúcia Danilevicz Pereira, remete à própria história líbia após a independência para explicar o que levou a Líbia a ser um dos países mais prósperos da África e a se tornar um Estado fragmentado depois.
À época, com apenas 27 anos, Kadhafi viu a monarquia pró-Ocidente ser derrubada e uma república ser instaurada, com “enorme apoio popular”. A partir dos anos 1970, foi implementado um projeto nacional de desenvolvimento apoiado no nacionalismo árabe, que levou a Líbia a liderar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do continente. “Em 1977, houve o estabelecimento do Estado de Massas e, para um povo livre, tem um simbolismo importantíssimo, porque se tratou de uma ordem política e econômica vinculada a uma série de políticas sociais importantes”, acrescenta.
De acordo com a especialista, a nacionalização de toda a cadeia petrolífera, por exemplo, permitiu que o país financiasse sistemas universais de saúde e educação, combatesse o analfabetismo, promovesse uma forte política habitacional e ampliasse os direitos das mulheres. Tudo isso foi realizado, pontua Pereira, sob fortes sanções ocidentais.
O fim da Guerra Fria e, consequentemente, das medidas unilaterais contra o país levaram a Líbia a alterar sua política externa e se reaproximar dos Estados Unidos e da Europa. Para a estudiosa, esse foi o início “de um problema que vai resultar no que culminou em 2011”. Após ter criticado ativamente a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, Kadhafi temia que o mesmo acontecesse com Trípoli. Diante disso, fechou um acordo com os Estados Unidos e o Reino Unido para abandonar programas de desenvolvimento de armas nucleares.
Paralelamente, foi iniciada uma campanha midiática que, segundo Pereira, apresentava o governo líbio como apoiador de movimentos terroristas na África. Até que a onda de protestos também começou a eclodir no país, com duras repressões das Forças Armadas, que desencadearam um efeito quase dominó.
A intervenção da OTAN, a queda de Kadhafi e a instabilidade gerada pelos grupos opositores agravaram o cenário da guerra civil. De um lado, surgiu o chamado Governo da Unidade Nacional, com sede em Trípoli; de outro, formou-se um grupo aliado à Câmara dos Representantes e ao Exército Nacional Líbio, que não é reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Para a população, restou um cenário de alta vulnerabilidade socioeconômica, agravado pelas enchentes recordes de 2023, que fizeram a taxa de extrema pobreza saltar para 40% atualmente. “Você tem um país fraturado, o que significa maior capacidade de garantir os interesses de potências, sejam eles econômicos ou geoestratégicos. Nesse caso, me refiro ao controle militar em um país com fronteira no Mediterrâneo e também recursos energéticos, com as recentes descobertas de reservas offshore”, enfatiza Pereira.
Conforme a especialista, além do petróleo e do gás, cujas reservas são estimadas em mais de 41 bilhões de barris, as maiores da África, o país também possui minerais estratégicos, fundamentais para os projetos de reindustrialização dos Estados Unidos e da Europa.
Após quase duas décadas de caos, o desejo de resgatar a soberania e a força que a Líbia teve no passado cresce no país. Diante disso, segundo a professora da UFRGS, há um movimento “claro” em andamento que busca “recuperar a soberania, a estabilidade econômica e o funcionamento das instituições estatais que desapareceram após 2011“.

Fonte: Sputnik Brasil.

Publicidade
ARTIGOS RELACIONADOS
- Publicidade -

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

- Publicidade -

Recent Comments

HomeÚltimas NotíciasGeral - NotíciasDa liderança africana em desenvolvimento à fragmentação: o legado da intervenção ocidental...