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Os Estados Unidos anunciaram o envio de centenas de soldados e drones para o combate ao narcotráfico na América Latina. O foco inicial é a realização de exercícios militares em países como Colômbia, Equador e Panamá, mas a intensificação da presença militar estrangeira no continente eleva as tensões geopolíticas regionais. A movimentação fez a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevar para “nível de criticidade” o risco de interferência norte-americana nas eleições presidenciais.
À Sputnik Brasil, José Augusto Zague, pesquisador do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista (IPPRI/Unesp), considera “bastante improvável” uma incursão militar no Brasil liderada pelos EUA uma vez que o custo não seria militar, mas também político.
O Brasil está entre as dez maiores economias do mundo e seu cenário diplomático diferente da Venezuela, portanto há uma grande possibilidade de represália da comunidade internacional em caso de ataque ao país. O que poderia ocorrer são ações em áreas de narcotráfico na América Latina em países que já têm acordos com os EUA.
Zague acrescenta que as incursões norte-americanas, geralmente, seguem três etapas.
Outro fator que desincentiva uma incursão norte-americana, é a capacidade militar brasileira, superior à de seus vizinhos sul-americanos, que utilizam muitos equipamentos de segunda mão. Com eles, diz Zaque, o Brasil tampouco tem contencioso
Para o professor de ciência política Ricardo Borges, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não há tensão política iminente na América do Sul. A presença militar de potências estrangeiras, como França, Inglaterra e EUA são incomodas, mas não geram uma preocupação regional.
Nesse sentido, ele menciona o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), programa estratégico do Exército Brasileiro como um exemplo da necessidade de maior controle de fronteiras, principalmente ara o combate ao narcotráfico.
“O Brasil é o maior entreposto mundial de cocaína. Não produz, mas quase toda droga que vai para a Europa e África passa por aqui.”
Borges afirma ainda que considera um mito a ideia de que os militares enviados pelos EUA à região tenham como objetivo pressionar ou interferir nas eleições.
Já André Araújo, professor de relações internacionais da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), avalia que, apesar da presença militar dos Estados Unidos na América Latina não ser recente, houve uma intensificação de ações ostensivas desde o início do segundo mandato de Donald Trump.
Ele aponta episódios como a declaração de grupos locais como organizações terroristas, os ataques no mar do Caribe contra supostas embarcações utilizadas pelo narcotráfico e a operação na Venezuela contra Nicolás Maduro, que ele aponta como o caso de maior destaque.
Somam-se a essa conjuntura as mudanças que ocorreram em outros governos latino-americanos, como no Chile e na Bolívia, que apresentam políticas externas de segurança alinhadas a Washington.
“Apesar de não terem ocorrido operações militares diretamente no Brasil, o cenário regional levanta questões que podem impactar a situação doméstica. Isso ocorre pela percepção de atores internos a respeito de o Brasil estar isolado internacionalmente ou de sofrer punições injustas em um cenário adverso.”
Em paralelo, ele frisa que as pressões externas estimulam a reorientação das políticas internas de segurança a respeito do controle de fronteiras e do combate ao narcotráfico.
Daniel Astone, advogado e professor de direito internacional da Universidade Mackenzie Alphaville, aponta que o Corolário Trump, também chamado de Doutrina Donroe, declara o objetivo de restaurar a primazia norte-americana no hemisfério e favorecer governos e movimentos alinhados a Washington.
“Por meio dele, Washington reivindicou para si a prerrogativa de estabelecer os limites da autonomia dos demais países do continente. É sobretudo nesse contexto que a ampliação da presença militar estadunidense aumenta a capacidade de intimidação e de interferência nas escolhas soberanas da região”, sublinha.
Astone aponta que a gravidade desse processo foi evidenciada pelo que aconteceu na Venezuela, onde a deslegitimação do governo foi acompanhada pela captura militar de Maduro e pelo controle norte-americano sobre a comercialização e as receitas do petróleo.
Ele considera que há um “risco plausível” de que o reforço das operações antidrogas pode deslocar rotas do narcotráfico e pressionar as fronteiras brasileiras. É o chamado “efeito balão”, que ocorre quando a repressão em uma área desloca rotas e atividades criminosas para outras, sem necessariamente reduzir o mercado.
Na visão de Astone, o envio de militares estadunidenses para América Latina em pleno momento que o Brasil atravessa uma das eleições presidenciais mais delicadas de sua história recente, serve como alerta de que há mais em jogo nesse pleito do que a mera escolha de um candidato A ou B por um período de quatro anos.
Ele aponta que existem motivos concretos para preocupação, destacando que, em julho, o Brasil negou vistos a funcionários norte-americanos por avaliar risco de instrumentalização política da visita, e em setembro, senadores dos próprios EUA cobraram respeito ao processo eleitoral brasileiro e ao resultado certificado diante de insinuações de Trump e seus aliados. E recentemente, Trump declarou acompanhar a eleição “muito de perto”.
Fonte: Sputnik Brasil.
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