O Brasil é o principal produtor global de várias commodities como soja, café, açúcar e suco de laranja, além de estar entre os líderes de vários outros produtos como milho, cacau e algodão. Apesar disso, a maior parte da negociação de compra e venda desses produtos é feita fora do país, em países como Estados Unidos e Reino Unido, com os contratos negociados em dólar.
À Sputnik Brasil, o diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Alexis Toríbio Dantas, explica que essa é uma vulnerabilidade da economia brasileira, uma vez que a Casa Branca vem utilizando, desde a década de 60 com Cuba, o dólar como uma arma geopolítica.
Os exemplos mais atuais são, no entanto, a Rússia e o Irã, que para além das sanções comerciais sofrem sanções financeiras que devem ser seguidas por todo o planeta sob o risco de serem excluídos do sistema bancário mundial, que dão prioridade à se manter ativos no mercado norte-americano.
A questão que fica, então, é como sanar esse problema?
Uma ideia seria contornar os pregões do Norte Global, por exemplo, a Bolsa de Chicago, o maior ponto de encontro de compradores e vendedores de soja, e realizar as transações por aqui. Um dos benefícios seria que esses contratos poderiam ser demarcados em reais, e não em dólares.
No entanto, à reportagem, Felippe Serigati, coordenador do Mestrado Profissional em Agronegócio do FGVAgro, explica que isso não é tão simples assim. A começar, o Brasil já participa na formação de preço de todos esses commodities — com exceção das carnes, que dependem mais de fatores como cortes e peças.
Tampouco ser o maior exportador dá ao Brasil uma primazia na hora de definir preços. A lei da oferta e demanda é a maior força por trás desse valor. "Se a China virar e falar: 'Não vou comprar soja', o preço da soja cai."
O especialista da FGVAgro explica que Chicago se tornou o preço de referência dos grãos porque a cidade era o principal ponto de escoamento dos grãos estadunidenses, o maior produtor à época. Com isso, lá se concentraram compradores, empresas de logísticas, seguradores, bancos que financiavam a produção e comercialização.
Em uma menor escala, há São Paulo, centro financeiro do Brasil. E contratos negociados por lá possuem uma vantagem para o produtor, uma vez que eles refletem melhor os padrões de sazonalidade e necessidades do agricultor, como poder precificar diretamente em reais, eliminando o risco cambial, isto é, uma possível desvalorização do dólar de quando o contrato foi negociado.
Mesmo assim, para o produtor brasileiro isso não representa necessariamente uma vantagem absoluta dado o grande volume de Chicago, uma diferença "brutal", comenta Serigati. E nisso há um impasse: "Quem veio primeiro, ovo ou galinha?"
Outro ponto é, também, justamente a liquidez do dólar frente as outras moedas globais. Para os agentes, também faz sentido utilizar a moeda norte-americana, que pode ser facilmente convertida em qualquer país.
Para Dantas, da UFRJ, é possível utilizar o poder de barganha do Brasil, como maior produtor, justamente para se tornar menos dependente dos trâmites do sistema financeiro internacional. Entretanto, para isso é necessária uma articulação de Estado, e não de produtores locais descentralizados.
Uma iniciativa do tipo já foi pensada e está em sua fase inicial de execução: a Bolsa de Grãos do BRICS, iniciativa que busca dar maior voz à países do Sul Global que conta com Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Indonésia como membros plenos.
A 17ª Cúpula de Líderes do BRICS, no Rio de Janeiro, registrou oficialmente o início das discussões para a criação dessa plataforma. Estimativas do grupo indicam que os membros representam cerca de 26% do comércio global e 40,7% do PIB são em paridade do poder de compra (PPC), além de dominarem no setor de comodities.
Segundo o economista, esses empreendimentos têm o poder de reduzir a dependência do dólar como moeda global de troca.
Fonte: Sputnik Brasil.




