Lula abriu seu discurso na cimeira apontando ao que, no seu entendimento, é o momento mais crítico das Nações Unidas desde 2003, quando participou do encontro de lideranças globais pela primeira vez como presidente do Brasil.
Para descrever sua argumentação, o chefe do Planalto afirmou que a ONU está falhando em livrar a humanidade do flagelo da guerra e destacou que credibilidade da entidade "nunca esteve tão baixa". Ele também criticou a atuação do Conselho de Segurança da ONU e voltou a defender a reforma do grupo, para se aproximar à realidade das lideranças mundiais hodiernas. Criticas também foram dirigidas a Israel e ao Hamas.
Para Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Lula apresentou as grandes questões internacionais sem ser sectário e foi enfático na defesa ao multilateralismo e à soberania brasileira. "O Brasil não cabe no quintal de ninguém", destacou. Na avaliação do professor da UERJ, ambos flancos denotam um discurso "contra os Estados Unidos".
Entretanto, boa parte dos pouco mais de 20 minutos de Lula no microfone na abertura da Assembleia Geral foram dedicados à questões domésticas. Lula destacou o combate a todos os escalões da criminalidade, inclusive ao que chamou de "magnatas do crime", disse que as bets estão "endividando e destruindo lares" e que as terras raras pertencem ao povo brasileiro.
"O acesso a nossos minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores estratégicos nacionais".
Para Gonçalves, a abordagem de assuntos doméstico como a segurança pública em um fórum internacional se deve à instrumentalização da pauta como possível ponto de ingerência estrangeira. Em outras palavras, Washington vem cooptando o tema para interferir em países na América Latina, como aconteceu recentemente na Venezuela, com acusações de envolvimento de Caracas com o narcotráfico, até o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Após Delcy Rodríguez assumir e, segundo o analista, se mostrar uma "pessoa inteiramente submissa aos Estados Unidos, todo aquele discurso sobre o crime organizado evaporou. O que ficou de objetivo foi a tomada dos recursos naturais venezuelanos, especialmente o petróleo pelos Estados Unidos".
No caso do Brasil, a internacionalização da agenda interna, sobretudo a da segurança pública, se deve "à uma oposição que não se dá ao respeito e oferece de bandeja aos interesses estrangeiros a soberania brasileira". Mais especificamente, o professor se refere ao desmonte das relações codificadas entre os Estados, quando um senador da República —neste caso Flávio Bolsonaro — "vai a outro país, no caso os Estados Unidos, e oferece a confecção de um programa de governo para os estrangeiros, são eles que estão internacionalizando as questões domésticas, são eles que estão comprometendo a soberania".
Ele acrescenta que a tribuna da ONU deveria ser um lugar para discutir questões internacionais, que afetam as relações entre os Estados. Porém, no caso brasileiro, a ameaça à soberania que conta com apoio dentro do país alçou assuntos domésticos ao centro do discurso do presidente.
Fonte: Sputnik Brasil.




