Abstenção no segundo turno: o que pode mobilizar eleitores para Lula ou Flávio Bolsonaro?

Publicidade
A quatro dias do segundo turno das eleições brasileiras de 2026, os dois candidatos – o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) – se encontram tecnicamente empatados nas pesquisas de voto. Com a abstenção sendo a segunda maior desde a redemocratização, atrás apenas da registrada em 1998, a mobilização dos eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno pode se tornar um fator decisivo para o resultado da disputa.
As duas campanhas buscam ampliar a participação de seus apoiadores por meio de estratégias distintas. Enquanto Lula aposta na mobilização da militância nas redes sociais e nas ruas, na defesa da democracia e nos programas sociais, Flávio investe no apoio de aliados políticos eleitos e em pautas como economia e segurança pública.
A poucos dias da votação, quais eleitores ainda podem ser mobilizados e qual candidato tem maior potencial para conquistar esses votos?
A elevada abstenção no primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 pode ser explicada tanto por obstáculos materiais quanto pelo desgaste político e pela descrença nas instituições.
Para Tayná Paolino, coordenadora acadêmica do Laboratório de Eleições, Partidos e Política Comparada, doutoranda em ciências sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), fatores como condições de trabalho, custos de deslocamento e dificuldades para chegar aos locais de votação afetam a participação eleitoral.
A pesquisadora também destaca o cansaço após disputas intensas. “A cientista política Carolina de Paula identificou, em pesquisas qualitativas, uma espécie de ressaca dos eleitores depois das disputas intensas de 2018 e 2022. Isso é diferente de indiferença”, explica Paolino.
Já Clarisse Gurgel, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), aponta fatores estruturais para o afastamento de parte do eleitorado, como a descrença na democracia representativa, o aumento da desigualdade, a influência dos interesses do mercado sobre a política e a perda de capilaridade dos partidos nas periferias.
Em sua avaliação, o PT perdeu parte de sua capacidade de mobilização após chegar ao governo, enquanto igrejas neopentecostais passaram a ocupar espaços comunitários antes associados a sindicatos, associações de moradores e organizações políticas. A recuperação dessa presença territorial é fundamental para reconquistar eleitores descrentes da política.
Apesar dos obstáculos, o caráter decisivo do segundo turno pode estimular a participação de eleitores que não compareceram à primeira votação. Uma pesquisa do instituto Quaest aponta que, entre os eleitores que se abstiveram ou votaram em branco ou nulo no primeiro turno, 43% declararam intenção de votar em Luiz Inácio Lula da Silva (PT), enquanto 38% indicaram preferência por Flávio Bolsonaro (PL).
Outros 17% não manifestaram intenção de votar em nenhum dos dois ou indicaram voto branco ou nulo.
Ela considera difícil alterar convicções políticas já consolidadas em poucos dias, mas avalia que ainda há espaço para estimular a participação. Nesse sentido, destaca as manifestações de rua, com a presença de estudantes, movimentos sociais, artistas e coletivos culturais, além de iniciativas espontâneas de mobilização eleitoral, como as campanhas de “vira-voto”.
A pesquisadora ressalta que as redes sociais e a mobilização presencial podem se complementar: enquanto a internet amplia o alcance das convocações e conecta participantes, organizações territoriais e lideranças locais ajudam a estabelecer contato direto com os eleitores.
Gurgel também considera que o resultado apertado da primeira etapa pode estimular eleitores dos dois campos políticos a comparecer às urnas.
A professora acrescenta que o fim das disputas para os governos estaduais e para os cargos proporcionais pode mudar a dinâmica da participação. Sem candidatos a governador, deputado e senador nas cédulas, articulações políticas locais e relações de troca de favores que contribuíram para mobilizar eleitores no primeiro turno podem perder peso. Com isso, questões nacionais e a rejeição aos candidatos tendem a ganhar relevância na decisão de votar.
As duas pesquisadoras destacam que a capacidade de mobilização dependerá também das pautas escolhidas pelas campanhas e de sua conexão com as preocupações dos eleitores.
Para Lula, Gurgel aponta a defesa da democracia e da soberania nacional, a valorização dos programas sociais e a retomada do diálogo cotidiano com as periferias como caminhos para conquistar apoio.
Porém, alerta que a segurança pública pode representar um risco para o presidente caso o tema domine o debate e propostas como a redução da maioridade penal provoquem divergências entre seus apoiadores. Isso poderia tirar espaço de pautas como o fim da escala 6×1.
Para Flávio Bolsonaro, a acadêmica destaca a importância de temas como economia, endividamento, custo de vida e segurança pública. A campanha de Lula pode questionar as consequências das propostas econômicas do senador, argumentando que o chamado Ministério da Prosperidade poderia ampliar o endividamento da população ao facilitar o acesso a empréstimos e financiamentos com juros.
Paolino, por sua vez, observa que economia e segurança pública têm potencial de mobilização para o candidato do PL, mas ressalta que a preocupação com a violência não é exclusiva da direita. Dados do Datafolha mencionados pela pesquisadora apontam que a violência é considerada o principal problema do país por 20% dos entrevistados, seguida pela saúde, com 18%, e pela economia, com 15%. Entre os eleitores de Flávio, a economia aparece com 21%; entre os de Lula, violência e saúde estão empatadas em 19%.
A rede de aliados eleitos de Flávio pode ampliar sua presença territorial por meio de articulações partidárias e lideranças locais, mas Paolino ressalta que o apoio de governadores e parlamentares não garante a transferência automática de votos. A campanha também precisa evitar que a percepção de uma vitória antecipada desestimule seus próprios eleitores a comparecerem.
Além das pautas econômicas e sociais, as consequências institucionais da eleição podem influenciar a decisão de comparecer às urnas. Com o fortalecimento de políticos alinhados a Bolsonaro no Legislativo e a possibilidade de Flávio indicar quatro ministros ao Supremo Tribunal Federal (STF), caso eleito, a composição do Congresso e a relação entre os Poderes também entram na disputa pela mobilização dos eleitores.
Para Paolino, a campanha de Lula pode explorar os riscos de concentração de poder associados ao avanço do bolsonarismo no Legislativo, enquanto Flávio pode apresentar sua base parlamentar como um trunfo para garantir governabilidade e aprovar propostas.
A pesquisadora ressalta, contudo, que uma maioria no Congresso não elimina a necessidade de fiscalização e independência institucional. A percepção dos eleitores sobre essas consequências pode influenciar tanto a avaliação dos candidatos quanto a disposição para votar.
Gurgel também destaca o peso que a possibilidade de Flávio indicar quatro ministros ao STF pode ter na decisão do eleitorado, uma vez que as nomeações produziriam efeitos sobre o Judiciário por décadas. A professora cita ainda propostas como a redução da maioridade penal, a castração química e uma eventual ampliação da presença militar norte-americana no Brasil, que podem mobilizar eleitores preocupados com a democracia, os direitos fundamentais e as condições de vida da população mais pobre.
Embora as duas pesquisadoras apontem caminhos distintos para compreender a mobilização eleitoral, ambas ressaltam que não é possível determinar com segurança qual candidato conseguirá atrair mais eleitores ausentes.
Para Paolino, é necessário considerar as razões da abstenção, as desigualdades socioeconômicas e territoriais e a capacidade das campanhas de alcançar diferentes grupos. Gurgel, por sua vez, defende a reconstrução de vínculos políticos cotidianos, sobretudo nas periferias.
Nesse cenário, a disputa não se limita a conquistar a preferência dos eleitores, mas também a convencê-los de que o resultado da eleição importa e a criar condições para que compareçam às urnas. Como resume Paolino, a questão institucional pode ser interpretada de maneiras diferentes pelas campanhas.

Fonte: Sputnik Brasil.

Publicidade
ARTIGOS RELACIONADOS
- Publicidade -

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

- Publicidade -

Recent Comments

HomeÚltimas NotíciasGeral - NotíciasAbstenção no segundo turno: o que pode mobilizar eleitores para Lula ou...