IMPOSSÍVEL PENSAR NUMA FAMÍLIA SEM CONFLITOS, MAS O SEGREDO DA HARMONIA É APRENDER A TOLERAR E RESPEITAR AS DIFERENÇAS
Muitos anos atrás, uma amiga da minha mãe finalizou uma narrativa repleta de aborrecimentos familiares, disparando a afirmação:
"Parente é acidente!" O amargo comentário acabou virando um ditado muito popular na minha casa, sempre lembrado quando algum familiar nosso pisava na bola e dava motivo para desgosto. Como não era raro isso acontecer, foi crescendo em mim uma impressão que - eu viria a perceber mais tarde - também era sutilmente sugeri da por estudiosos do assunto: família é mais um problema que uma solução, isso quando não desanda de vez, transformando-se num inferno de dar inveja a Dante.
Os médicos, no seu convívio esforçado com todos os tipos de patologias, acabam sendo levados, sem querer, a conceituar a saúde como um estado de ausência de doenças. A psicanálise. criada por médicos e exercida, até hoje, por muitos deles (como é o meu caso), herdou esse hábito de conceber a saúde psíquica pelo método de exclusão. Vem daí que muitos analistas acabam enfatizando o lado mais problemático da experiência humana, deixando o que é bom para fundo do cenário. Essa atitude torna-se mais patente ainda quando o tema é família, personagem constantemente responsabilizada por tudo quanto é trauma, conflito, neurose e loucura disponíveis no mercado.
Dessa mesma opinião comungava, discretamente, um amigo meu, fosse a respeito de família em geral, fosse a respeito da sua, em particular. Até que um dia, sua filha adolescente comunicou que registrara, como senha de acesso à internet, a combinação "família". Como ele não atinasse com a razão da sua escolha, ela explicou: deveria registrar uma senha para uso de todos os moradores da casa e pensara em usar "família1". Como ele não atinnasse com a razão da sua escolha, ela explicou: deveria registrar uma senha para uso de todos os moradores da casa e pensara em usar “família 10” mas o número de dígitos não poderia passar de oito, por isso ela tirara o zero. "Mas por que família 10?”, insistiu o meu amigo, ainda sem entender. "Ah pai", ela respondeu sem hesitar, "porque eu acho que a nossa família é 10!...”
Qual pai não ficaria, como o meu amigo, emocionado até as lágrimas ao saber que sua família ganhava uma nota tão elevada, ainda mais quando conferida por um jurado tão rigoroso e sincero quanto um adolescente? E quanto não daríamos todos nós para descobrir e reproduzir as características que uma família deve ter para garantir e perpetuar um julgamento tão favorável? É justamente aí que mora o perigo, pois não temos como saber o que deve ser feito, antes de fazê-Io. Sendo assim, os rumos de uma família seguem uma trajetória criada à nossa revelia, portanto, impossível de serem submetidos ao controle exclusivo de nossa vontade.
Formular receitas, mesmo aquelas oriundas de sofisticada culinária psicanalítica, de como as famílias devem ser, é tão inútil quanto determinar qual deve ser a direção do vento ou qual deve ser o horário da chuva. Além de inútil a tentativa comprometeria o sabor da espontaneidade, tempero tão apreciado em qualquer relacionamento.
Coletânea de expectativas
A psicanálise, como outras disciplinas interessadas no comportamento humano, pode, isto sim, sugerir maneiras de esmiuçar a intrincada rede de emoções tecidas por uma família, alargando o nosso entendimento sobre sua natureza.
Assim como qualquer caipira esperto pode antever mudanças no clima de sua região sem precisar da meteorologia, também qualquer pessoa pode conhecer melhor como funciona sua própria família sem precisar recorrer, a toda hora, nem a manuais, nem a entendidos. Basta conviver, durante tempo suficiente, na intimidade familiar para descobrir como se distribuem seus principais papéis e quais as relações de poder, amor e ódio que se estabelecem entre os seus componentes.
Porém, a clareza dessa observação é naturalmente embaçada pelo desejo, constante na mente de cada pessoa, de possuir uma família segundo o figurino mais belo e ideal possível. Então, cada descoberta que não preencha essa coletânea de expectativas repercute de modo desagradável no observador (cuja isenção jamais poderá ser completa), estimulando nele o anseio de modificar aquela incômoda forma de ser familiar. Num dos grandes romances infantis de Monteiro Lobato, os inquietos moradores do Sítio do Pica-Pau Amarelo envolvem-se numa atividade similar a essa que acabo de descrever. Capitaneados pela boneca Emília, saem por aí a reformar tudo que julgam estar errado na natureza, até perceber o tamanho da embrulhada em que se meteram.
Essa parábola acaba desembocando num final feliz, porém, o mesmo espírito insano de mudança pode levar, na vida cotidiana, a conseqüências bem mais desagradáveis, mas não menos exemplares. O resultado mais irônico dessa atitude reformista indiscriminada pode ser observado quando sai pela culatra o desejo tresloucado de consertar a natureza de uma família, nem que seja só um detalhe dela.
Quanto mais irredutível for essa intenção, mais ela será o fator responsável pelo bloqueio do desenvolvimento e crescimento naturais de todos os seus componentes. Nossa tendência ao enriquecimento e progresso emocional e até mesmo material só pode encontrar campo livre para frutificar quando a atmosfera familiar estiver dominada por tolerância e aceitação das diferentes formas de ser de cada um dos seus membros.
Chuvas e trovoadas
A harmonia familiar é como a harmonia musical: baseia-se na combinação de timbres, notas e instrumentos marcadamente diferentes e não na justaposição de elementos idênticos, que só consegue produzir sons enfadonhos, repetitivos e desvitalizados.
Uma família é um organismo vivo. Seu grau de vitalidade supera a soma do vigor das pessoas que a integram. Ela está, portanto, sujeita a oscilações como tudo o que respira e se reproduz sobre a face da Terra. Por isso, ela pode ser digna de figurar na árvore genealógica iniciada no útero que nos concebe, seguida pelo seio que nos alimenta e pelo colo que nos contém e conforta.
Como todos esses protagonistas da criação de nossa história pessoal, a família também tem seus dias de chuva e de trovoadas. Interpretar essas épocas de turbulência como simples expressão de anomalias inaceitáveis e passíveis de rápida extirpação é uma postura que trai a ânsia teimosa e mal-disfarçada de atingir um paraíso perfeito, cujo resultado é uma pasmaceira monótona e indigna de ser considerada humana. Encarar as divergências internas como manifestações fertilizantes de energia e vitalidade pode, surpreendentemente, levar-nos a receber a nota máxima do mais severo examinador.
Os rumos de uma família seguem uma trajetória criada à nossa revelia, impossível de submeter-se ao controle de nossa vontade.




