Vire esse jogo: quem manda é você

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Quem já não achou o fim da picada ver uma mãe arrastando uma criança pequena, que berra e grita como uma possuída, para fora do shopping? E quem já não achou o má-xi-mo uma mãe que, num parquinha, consegue convencer o filho explicando que é hora de ela ir embora para casa?

Pois é hoje temos a tendência de achar que tudo dever ser dialogado, conversando, concordando, combinando… Um eterno plebiscito em que os guris são chamados a optar pelo sim ou pelo não a todo momento. E isso acontece com a melhor das intenções. Muitos pais têm medo de traumatizar a criança. E querem dialogar e explicar tudo para uma criatura que ainda não é capaz de entender determinadas coisas. Muito menos de tomar decisões.

Por que eu quero e pronto

Para crianças com menos de 7 anos, as melhores respostas que um adulto pode dar é "porque não", "porque eu quero", "porque eu estou mandando". E quando for possível, uma explicação simples e direta sobre o assunto. "Isso mostra que você, mãe, pai ou responsável, sabe o que é bom, sabe evitar aquilo que coloca a criança em perigo, enfim, sabe ajudá-la a crescer", explica a psicopedagoga e vice – presidente da ABPp (Associação Brasileira de Psicopedagogia) Maria Irene Maluf, de São Paulo, mãe de Maria Paula e Maria Fernanda.

A lei não fala de responsável legal? Então, é por aí mesmo. A responsabilidade por decidir o que é bom para seu filho é sua, não dele. E isso ainda por um longo tempo. "Antigamente, nós vivíamos num regime patriarcal. O filho obedecia – ‘senão, você vai se ver com o seu pai, heín?’ – e pronto. Quando as mulheres foram trabalhar fora, esse modelo mudou. E nós criamos, sem querer – e, nunca é demais repetir, com a maior das boas intenções -, uma educação baseada na democracia.

Ou seja, os pais opinam, a criança discute, obedece quando quer e acaba, aos 3 anos de idade ou até antes, mandando em casa por falta de quem mande por ela", explica Ceres Alves Araújo, psicoterapeuta de criança e adolescentes, de São Paulo. E acontesce que família, definitivamente não é democracia.

O pequeno rei

Não é à toa que hoje em dia existam tantos pais com dificuldades de controlar seus filhos em lugares públicos, e nas próprias casas. "Tenho uma filha de 3 anos que está impossível. Minhas amigas já brincam comigo e me telefonam para saber se a Carol está em casa. Se tiver, elas dizem que não vêm me visitar porque não dá pra gente conversar mesmo. È duro adimitir que uma bebezinha tão fofa e sorridente se transformou em uma pequena tirana que manda e desmanda aqui em casa", conta Célia Regina Lopes, de São Paulo.

O pior é que isso não é raro. Desde o dia em que a criança nasce, a maior parte dos pais mostra que tudo na casa (na vida, no mundo, no Universo) gira em torno dela. O bebê não chora nem um segundo, e a mãe já está lá de plantão. O filho abre a boca, e a mãe dá o peito de novo. Nem estica o bracinho, alguém já pega o brinquedo para ele.

Enfim, mães e pais, principalmente de primeira viajem, colocam o bebê num pendestal. E depois não sabem como tirá-lo de lá. "A criança recém-nascida é muito idealizada. Para os pais seus filhos é sempre o mais lindo, o mais inteligente, o que vai andar primeiro etc. E, em geral, a mãe e o bebê são muito grudados, quase um ser só, e ela não consegue frustrá-lo nem por um segundo – já que, no fundo, isso seria como frustrar a sí mema. Desse modo, o bebê que tem tudo a toda hora começa a mudar na dinâmica da casa e também nos próprios pais. E vai crescendo assim, até se tornar uma criança controlada (e incontrolável)", diz a psicanalista Patrícia Cardoso de Melo.

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