Argentina enfrenta uma 'revisão crucial' do acordo alcançado com o FMI, diz analista

Representantes do banco estão auditando a economia do governo do presidente Javier Milei, na terceira revisão do programa vigente. A delegação não contou com a presença do ministro da Economia, Luis Caputo, que viajou a Nova York com Milei para a Assembleia Geral da ONU.
O empréstimo em revisão é um Acordo de Facilidades Estendidas de R$ 20 bilhões (R$102 bilhões) aprovado pelo Diretório Executivo do FMI em abril de 2025. Desde então, duas revisões sucessivas, em julho de 2025 e abril de 2026, habilitaram desembolsos adicionais que elevaram a cerca de US$ 15 bilhões (R$ 76,5 bilhões) o montante já liberado sobre o total acordado.
A missão avalia o cumprimento das metas do programa com dados consolidados ao fechamento do segundo trimestre do ano, com especial atenção em duas frentes: o resultado fiscal e o nível de reservas internacionais do Banco Central. Concluída a etapa técnica, a revisão deverá ser aprovada pelo Diretório Executivo do organismo em Washington para que se concretize um novo desembolso de 900 milhões (R$ 4,59 bilhões), cifra crucial para enfrentar vencimentos de dívida com o próprio organismo.
O Ministério da Economia já havia antecipado que descumpriria o compromisso do superávit previsto para o ano: os 1,3% do PIB que estima ficaram abaixo dos 1,4% assumidos na assinatura do entendimento.
A situação inverte o padrão das duas revisões anteriores, nas quais a Argentina cumpriu a meta fiscal, mas não a de acumulação de reservas. O governo confia que o desvio fiscal seja aceito mediante uma dispensa, dado que o considera limitado frente ao objetivo original.
No fim de setembro, a Argentina enfrenta um vencimento com o FMI de US$ 803 milhões. Restam ainda US$ 840 milhões no início de novembro e US$ 344 milhões em dezembro, compromissos que o Tesouro afirma poder cobrir.
A revisão chega em paralelo ao debate no Congresso pelo Orçamento 2027, que mantém como eixo central a mesma âncora fiscal que Washington audita. O projeto prevê ajuste do gasto público de 26,7% frente ao empenhado em 2023, quando o governo assumiu.
Esse ajuste sustentado tem correlação nos indicadores de consumo e renda. As percepções privadas registradas acumulam queda real de 3,6% desde novembro de 2023, e o salário mínimo perdeu 40,8% de poder aquisitivo.
O consumo massivo fechou o primeiro semestre com baixa acumulada de 2,9% no ano, segundo a consultoria Scentia, após ter despencado 13,9% em 2024.
Enquanto o FMI define se concede a dispensa fiscal, o Orçamento 2027 fixa o teto de gasto que deverá administrar o próximo governo, com uma inflação oficial projetada em 18% ao anol, um crescimento do PIB de 4% e um dólar sem sobressaltos, apesar da incerteza própria dos anos eleitorais na Argentina.
Em entrevista à Sputnik o economista Miguel Ponce avaliou que o desembolso não deve sofrer obstáculos:
Consultado pela Sputnik, o economista Martín Pollera relativizou o peso político do desembolso:
"Milei quer falar com o dono do circo, em vez de escutar os animadores", resumiu Ponce. "O governo quer se antecipar e falar sobre a possível necessidade de dólares para trazer calma, e por isso busca uma nova cúpula com Trump e o secretário do Tesouro Scott Bessent".
De acordo com Ponce o debate sobre o modelo está centrado no atraso cambial, e a busca de que se acumulem reservas segue sendo uma reivindicação, "por isso é fundamental mostrar maiores apoios nesse sentido", destacou.
Pollera acrescentou outro condicionamento para o futuro, ligado ao cronograma da dívida:

Fonte: Sputnik Brasil.