Comer para reunir
Entre os mortais, uma das maiores funções da refeição coletiva é consolidar o grupo, reforçar os laços sociais. Convidamos alguém para se sentar em nossa mesa porque a queremos por perto, porque sua presença nos torna melhores. "Quando você chama um grupo de amigos para jantar em casa, está comunicando que aquele grupo é importante para você", diz Rui Murrieta. E isso ocorre o tempo todo: aniversário do sobrinho, Natal, casamento do primo, campeonato de futebol, despedidas e ausências. Mas pode ser também um café da manhã corrido com o companheiro. Corrido, mas que não deixa de ser a dois e de significar o compartilhamento de mais um dia.
Mesmo o mais prosaico almoço familiar de todo dia, que nunca começa sem que todos estejam em seus lugares, tem seu significado. "É como se firmássemos um compromisso com o futuro. Combinamos implicitamente que daí a um tempo, quando o grupo se reunir de novo, estaremos comendo, brincando e continuando juntos", diz George Barcat, professor de filosofia da Associação Palas Athena, de São Paulo.
Falar à mesa
Sim, nos reunimos à mesa para formar ou reforçar grupos, para renovar laços, deixar claro que continuamos juntos. Mas ninguém se senta à mesa, come e vai embora, sem dar um pio. Conversar faz parte da experiência de repartir a comida, afinal nos alimentamos não só do que comemos, mas também ao saborear os afetos e as relações que sabemos existir entre os convivas. As recepções aos guerreiros do rei, na Europa da Idade Média, tinham até um momento especial para falar.
Os nobres pediam que as mulheres se retirassem do aposento e então os irmãos de armas trocavam confidências sobre os combates. "Na linguagem que movimenta a vida cotidiana - tão cheia de pressas e hábitos -, a prosa predomina, mas, de vez em quando, abre-se um espaço para a poesia. Isso acontece todas as vezes em que, a despeito da confusão, do cansaço ou das obrigações, achamos um jeito de valorizar um encontro ou uma ação. Nos banquetes, ocorre a inversão, e a festa é da poesia: predominam as cores, os cheiros e os sabores.
É a hora do brinde e da reflexão. Pena que, hoje, desdenhemos os discursos. Sem eles, a comemoração fica um tanto sem voz e corre o risco de ser mais um de nossos hábitos sensabores", diz Barcat. Para além da comida, há ainda um outro marco maior: o olhar nos olhos, o riso e tudo o que envolve o alimento. Tem também a oferta de quem elabora o jantar, "porque é uma maneira de não ser esquecida", diz a jornalista Patrícia Cornils, (aquela que no Natal bota sapatos novos e serve bem aos amigos).
"Cozinhar é o mesmo que cantar, pintar ou fazer uma catedral para os outros", diz Hector Hermann Bruit, pesquisador do Centro de Memória da Unicamp. Tudo isso é o que une as pessoas, desde tempos de Baco e Dionísio, à volta da mesa.