Como escolher um bom profissional

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Começar uma psicoterapia é uma decisão importante. Não só pelos benefícios que, em geral, esse processo é capaz de trazer, mas também porque essa decisão costuma acontecer num momento de crise. Por mais que se saiba que a psicoterapia pode funcionar muito bem em qualquer situação de vida, a crise (seja ela pessoal, profissional, familiar, afetiva etc.) é sempre a motivação mais forte para se investir no próprio crescimento. Estamos momentaneamente frágeis, e isso requer cuidados especiais. E muita habilidade por parte de quem cuida.

Em geral, é nesse momento que surge também uma dúvida crucial: qual o melhor profissional? É impossível esquecer que nas mãos do psicoterapeuta colocaremos nossa intimidade e exporemos nosso lado mais vulnerável. Portanto, é imprescindível que ele inspire confiança. É por isso mesmo que o principal ponto de partida para essa escolha é a indicação de amigos. Na opinião dos próprios profissionais, essa é também a melhor forma de se chegar a um consultório. "É aconselhável sempre buscar a referência de alguém conhecido.

 
Não adianta fazer propaganda. A melhor propaganda são nossos clientes", confirma Margarete Moscovo, psicóloga e coordenadora do
CAT – Centro de Atendimento Terapêutico, clínica que reúne mais de 30 profissionais que trabalham com diferentes linhas da psicologia.

Ela também aponta o principal obstáculo para que a indicação dê certo e a psicoterapia "funcione": a falta de vontade de participar do processo terapêutico. "Às vezes a pessoa não quer fazer; são as outras pessoas que dizem que ela precisa, e isso cria uma resistência muito grande."

Infelizmente, o contrá¬rio também acontece. O excesso de expectativa sobre o resultado de uma psicoterapia pode gerar uma visão pouco realista do que ela é capaz de proporcionar. Resultados rápidos e, de preferência, "mágicos" são muitas vezes o mais esperado. O grande problema é que isso não existe. "O que afasta as pessoas da terapia é a angústia com que vão ter de lidar no processo de descoberta de si próprias", ela completa.

Muitos buscam uma terapia rápida porque estão ansiosos ou porque têm de tomar alguma decisão importante em sua vida. Então procuram uma linha de atendimento que seja mais rápida. Isso é possível e em alguns casos traz resultados muito bons. A psicoterapia breve (técnica focal que pode se apoiar nas mais diferentes linhas teóricas, da psicanálise ao psicodrama) é indicada quando existe uma situação emergencial: a dificuldade de lidar com o luto, uma separação traumática, dificuldades escolares, uma crise fóbica, entre outras. Mesmo nesses casos é preciso estar atento: o profissional deve ser habilitado e ter as mesmas referências que se busca nos tratamentos mais longos.

Pergunte tudo – Até o termo "terapeuta" pode esconder armadilhas. O psicólogo clínico é um profissional que estudou pelo menos cinco anos num curso de graduação, fez um estágio supervisionado e espera-se dele um bom preparo. Por outro lado, alguém que fez um curso de fim de semana e que use de má-fé pode se apresentar como "terapeuta".


Para se precaver desses embustes, a psicóloga Liliane Moreira, membro do Conselho Regional de Psicologia – SP, também aconselha a indicação vinda dos amigos. "Mas, se não se conhece alguém que já fez psicoterapia – o que hoje em dia é difícil-, pode-se procurar as clínicas-escola, que estão aptas a divulgar esses nomes. E não são só os psicólogos que são psicoterapeutas." O psiquiatra Eduardo Tancredi reforça essa lembrança: "O psiquiatra é o profissional que pode fazer uma triagem vendo se existe a necessidade ou não de oferecer à pessoa tratamento medicamentoso. Se essa necessidade for descartada, ele pode encaminhar para a psicoterapia ou fazer ele próprio, se estiver preparado para isso."

Liliane também aconselha a esclarecer bem todos os pontos do contrato de trabalho. "Pergunte qual é sua formação, onde ele se formou, há quanto tempo clinica, qual sua linha teórica. Esse é um direito do paciente." Nem mesmo o valor das sessões deve ficar de fora desses questionamentos. Ela confirma que na atualidade a maioria dos psicólogos tem feito negociação de valores. "É claro que alguém que tem mais de 30 anos de formado cobra um valor diferenciado. Mas mesmo este pode ter alguma flexibilidade." E, se não se chegar a um acordo, o ideal é que o profissional ofereça à pessoa algum caminho alternativo, indicando o nome de outros profissionais competentes ou de clínicas de atendimento social.

Bom e barato – As clínicas-escola além do trabalho supervisionado dos alunos às vezes dispõem de um cadastro de profissionais. A psicóloga Marina Pereira Rojas Boccalandro é diretora da clínica da PUC-SP, a mais antiga do país, que funciona há 41 anos. Ali é atendida uma clientela formada na região onde se localiza a faculdade mas também por muitas pessoas vindas da periferia. Um dos chamarizes, além da confiabilidade do serviço oferecido, é o preço: o valor de referência é R$ 88 por mês, embora possa variar para mais ou para menos, de acordo com o poder aquisitivo do cliente. Mas é quase certo ter de enfrentar fila de espera, embora ali esse tempo tenda a encurtar nos meses de março e abril. Como o curso abrange os quatro troncos básicos da psicologia, psicanálise, junguiana, fenomenológica e comportamental, estão disponíveis essas e outras opções de atendimento. É na triagem que o profissional procura identificar a necessidade do cliente e adequar seu atendimento a uma linha ou profissional específico. "Há profissionais preparados para atender inclusive pessoas ‘viciadas’ em intemet."

A linha terapêutica é, entretanto, uma preocupação menor na escolha do profissional. "Só leva esse aspecto em consideração quem já é da área. A população, em geral, nem conhece bem as diferenças", afirma Montserrat Mantovani, professora da PUC-SP e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.

O que acaba sendo decisivo mesmo é a empatia. ”Tem pessoas que nos dizem coisas a respeito de nós mesmos de uma forma diferente e que nos toca. São mais fáceis a compreensão e o trabalho com alguém assim. O que também não é sinônimo de competência."

"Importante", complementa Margarete Moscovo, "é perceber que o terapeuta não é o ombro amigo que vai te receber como coitadinho. Ele é alguém que vai olhar o que acontece e interpretar o seu comportamento para você lidar melhor com ele. Existe um tempo para estabelecer a confiança. O terapeuta tem de ser flexível e também sentir empatia pelo paciente." É o que faz com o paciente perceba que o que ele diz ali é importante. Chegar a um ponto de equilíbrio é o ideal. Por mais técnica que o profissional esbanje, sua emoção está envolvida. Ser frio e duro afasta o paciente, mas ser sedutor e envolvente demais também. E se o primeiro contato não foi tão satisfatório, vale lembrar que o vínculo terapêutico não se estabelece de uma só vez, mas à medida que se conquista confiança.
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