Em busca de atenção

O caso descrito pelas psiquiatras italianas Camilla Callegari, Paola Bortolaso e Simone Vender, do Departamento de Medicina Clínica da Universidade da Insúbria, revela características típicas da síndrome de Munchausen. Trata-se de uma patologia que leva quem dela sofre a vagar  de um hospital a outro, simulando as mais variadas condições patológicas e, em muitos casos, a se submeter a inúmeras e inúteis intervenções cirúrgicas.

Mas as viagens incríveis e as peripécias mirabolantes narradas no romance fantástico As aventuras de barão de Munchausen, de Rudolf Erich Raspe, de 1785 - obra que inspirou a denominação da patologia - são ofuscadas pela inesgotável fantasia com a qual os pacientes simulam ou provocam em si mesmo as mais diversas doenças.

A síndrome de Munchausen pode ser definida como uma patologia da relação médico-paciente: indivíduos afetados por ela provocam intencionalmente em si mesmos a manifestação de sintomas, muitas vezes graves, para serem internadaos  e assumirem a identidade de doente, com todas as "vantagens" que este papel comporta: desresponsabilização, necessidade de proteção e dependência.

Não raro, a pessoa arrisca a própria vida para conseguir uma internação ou uma intervenção cirúrgica. Pode provocar hemorragias ingerindo fármacos anticoagulantes, desencadear crises hipoglicêmicas consumindo insulina ou, ainda, contrair infecções, às vezes graves, contaminando com fezes ou urina feridas preexistentes ou injetando o muco dos ferimentos em várias partes do corpo. E tudo isso não é  prara conseguir vantagens materiais: o único objetivo dessas pessoas é serem consideradas doentes.

Não existe interesse, por exemplo, de obter ressarcimento ou incentivos econômicos, evitar o serviço militar, o trabalho ou então fugir de procedimentos judiciários. Nesses casos, o que se constata, em geral, são simulações e não procedimentos. Foram estudados casos de pessoas que provocavam no próprio corpo enfisemas subcutâneos injetando ar sob a pele, ou abscessos mamários provocando pela introdução de material fecal nas mamas. Em um paciente foram encontrados elevados níveis de radiotividade por causa dos vários exames aos quais ele havia se submetidos em poucos dias.

Em geral, os doentes inventam histórias para explicar os seus sintomas. Submetem-se a muitos diagnósticos, muitos deles invasivos e desconfortáveis. Se o resultado dos exames são negativos, costumam reagir mal, acusando os médicos de incopetência e, por fim, quando são "desmascarados", quase sempre deixam rapidamente o hospital para dirigirem-se a outra instituição. Empreendem, assim, uma espécie de dolorosa "peregrinação hospitalar" - não em busca de cura, mais de cuidados o atenção.

Uma grande variedade de doenças pode ser simulada por tais pacientes: distúrbios abdominais, alterações da coagulação sanguínea, sintomas neurológicos e psiquiátricos, doenças dermatológicas e auto-imunes, desiquilíbrio metabólicos, patologias renais, cardiopatias, artrite e sequelas de abuso sexual. Exames de imagem do cérebro desses pacientes mostram que muitos deles apresentam lesões ocorridas precocemente no córtex pré-frontal. A existência de disfunção é determinante da síndrome. 
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