Eu escuto, mas não entendo. Segundo especialistas, esta é a reclamação de 61% a 72% das pessoas com mais de 60 anos que sofrem hoje com a presbiacusia, nome dado à perda da audição que atinge a terceira idade. Por isso, muitos netos precisam gritar para conversar com seus avós por telefone ou repetir duas vezes a mesma palavra. Com o passar dos anos, o aparelho auditivo sofre um desgaste natural. Mas outros fatores colaboram para piorar o quadro: predisposição genética, doenças como diabetes e hipertensão, exposição constante a ruídos, infecções e até medicamentos (como diuréticos e aspirina) alteram a audição.
"Na prática, há uma perda lenta e progressiva da capacidade de ouvir sons de alta freqüência (agudos), o que torna a percepção das consoantes mais difícil", explica a otorrinolaringologista Mara Gândara (SP), coordenadora do Programa Reouvir, que organiza palestras sobre o tema. Resultado: os idosos trocam "festa" por "pesca", "armário" por "aquário", "ladrão" por "paixão", e o problema que era apenas físico ganha outras proporções.
Fora de sintonia
A primeira reação de quem tem presbiacusia é não aceitar o fato e se isolar do mundo. O idoso evita atender o telefone, perde o interesse pelo cinema e teatro e até compra briga com familiares que, segundo ele, insistem em murmurar as palavras de propósito para afastá-Io da conversa. Há também aqueles que, embora admitam não escutar tão bem quanto na juventude, acham que nada pode ser feito. Um grande equívoco, garante a fonoaudióIoga lêda Chaves Pacheco Russo (SP), especialista em audiologia geriátrica. "Não há como conter a perda. Mas com acompanhamento médico, aparelhos adequados e apoio da família, a pessoa só abandona o círculo social por causa da audição se quiser", afirma.
Quem decide melhorar sua sintonia com o mundo tem à disposição toda a tecnologia da era digital. Os aparelhos auditivos estão bem mais discretos e poderosos - há modelos capazes de serem programados para selecionar os sons que devem ser privilegiados em meio a um ambiente com inúmeros ruídos diferentes, por exemplo. Para ter acesso a esta modernidade, contudo, paga-se um preço alto, que ultrapassa os R$ 3 mil.
Aprendendo a ouvir
Antes de escolher o acessório, no entanto, é preciso consultar a opinião de um médico otorrinolaringologista. Só este especialista poderá avaliar a audição, com exames audiométricos, por exemplo; dar o diagnóstico e indicar o melhor tratamento. Identificada a presbiacusia, então o paciente é encaminhado a um fonoaudiólogo, que tem principalmente a função de orientar e acompanhar o paciente durante a escolha e utilização do aparelho auditivo mais indicado.
Mas, como toda adaptação, o processo não é fácil e muitos reclamam da sensação incômoda de que tudo, até o som da descarga, parece ficar mais alto do que o normal. A médica Mara Gândara garante que isso é passageiro. "Funciona mais ou menos como os óculos. Só mesmo quando a gente coloca é que percebe o quanto precisava", compara. Por isso, nesta hora, o apoio da família é fundamental. Segundo lêda Russo, algumas atitudes simples e carinhosas podem deixar o idoso mais confiante. "Tenha paciência, fale lentamente e sem gritar. Garanta a atenção dele durante a conversa, para que gestos e expressões o ajudem a interpretar o que é dito."
Feito tudo isso, os especialistas asseguram que os resultados são surpreendentes e aparecem em poucos meses. Idosos relatam que, depois de voltar a ouvir, até a memória parece ficar turbinada. "Eles passam a escutar e a entender, ações fundamentais para o desenvolvimento", explica Mara. E como nunca é tarde para se evoluir...
O caminho do som
O ouvido capta as ondas sonoras que percorrem uma longa estrada até se transformarem em impulsos elétricos para serem interpretadas pelo Sistema Nervoso Central. Se há uma falha em qualquer ponto a mensagem chega incompleta. As ondas sonoras devem entrar pelo conduto auditivo externo e fazer o tímpano vibrar para levá-Ias até pequenos ossos (martelo, bigorna e estribo) que ajudam a continuar o seu caminho. As vibrações atingem a cóclea e passam a movimentar os líquidos existentes em seu interior. Ali, as células nervosas transformam o som em impulsos que vão caminhar pelos nervos acústicos até o cérebro. Ali a mensagem é registrada.




