O cineastra François Truffaut e o ator Jean-Pierre Léaud embaralhavam identidades. O primeiro fez uma série de filmes protagonizados pelo segundo – Léaud sempre no papel de Antoine Doinel, personagem principal de Os incompreendidos. Trata-se do primeiro longa-metragem do diretor françês e de um marco da nouvelle vague, o movimento em que os cineastras reivindicaram a autoria dos filmes e uma liberdade criadora que soltou amarras estéticas e políticas.
O primeiro filme de Truffaut é uma crônica sobre a imposição da maturidade e as falsas promessas da educação tradicional. Paris é o pano de fundo, filmada num estilo desponjado que valoriza o espaço urbsno com o lugar do acaso, do encontro e da experiência amorosa.
Os incompreendidos é uma obra outobiográfica. Truffaut foi criador com pouco afeto pelo padrasto e pela mãe, que o rejeitou desde muito cedo. O menino passou a infância numa condição de recusa e abandono, vivendo com a avó. O protagonista do filme é o pequeno Antoine – personagem predileto de Truffaut. Espécie de alter ego do cineasta, o menino mora com a mãe e o padrasto num apartamento em um bairro central de Paris. Os adultos não ligam muito para o garoto e, além disso, impõem à criança tarefas domésticas como arrumar a mesa e colocar o lixo para fora – obrigações de classe média que, reforçam a pequeneza do horizonte familiar.
Na escola, o sistema de ensino é antiquado e impositivo. A classe é toda de meninos, obrigados a decorar versos enfadonhos e repetir de forma exaustiva um conhecimento com o qual não se identificam. Paumatórias, uniforme e rigor disciplinar são os elementos que fazem a mediação entre professor e estudantes.
O contidiano de liberdade a que a criança aspira está na rua. Na compahia de um amigo, o pequeno Antoine percorre a cidade, vai a um parque de diversões, fuma escondido, gazeteia aulas. Para justificar sua ausência da escola, diz ao professor que a mãe havia morrido. É o que basta para que os pais se apavorem e decidam abdicar de sua guarda, relegando o menino ao juizado. Antoine Doinel vai para um reformatório, mas termina por fugir, em corrida desabalada.
Assim, em nome do bom comportamento e de uma formação predefinida – orientada pelo comprimento de tarefas diárias, domésticas e escolares repetitivas – são sacrificadas a infância e a imaginação. O personagem principal é um adulto em miniatura, condição gerada pelo comportamento daqueles que o rodeiam e insistem em discipliná-lo e toureá-lo. Não há espaço para a fantasia e a criatividade. A energia indomável da infância e da adolescência, que poderiam redundar em crianção, felicidade e arte, termina por conduzir uma condição de inadequação e forja estigmas.
A forma e o ritmo da obra definiram um novo momento no cinema francês e europeu. De certra forma, anunciaram também uma transformação social, que apontava para as revoluções estudantis e comportamentais da década de 60, das quais o Maio de 68 se tornou o símbolo maior.
A cópia em DVD traz ainda o média-metragem Antoine e Collete, do mesmo diretor, protagonizado pelo mesmo Jean-Pierre Léaud, no mesmo papel. Antoine aparece com 17 naos, mora sozinho e trabalha numa gravadora. Ele flerta com Collete, mocinha que despreza sus modos protocolares e calcualdos, próprio de um menino imaturo, que cresceu, conquistou sua libredade na cidade grande, mas não se livrou da experiência do afeto truncado e insuficiente.
