Casos de violência política aumentam no Brasil durante eleições: 1 a cada 9 horas, no 1º turno

O levantamento acompanhou os 50 dias das campanhas eleitorais do 1º turno, iniciadas em 16 de agosto e encerrada no último domingo (4), e constatou aumento da violência em comparação com o primeiro turno de 2022, quando foram registrados 121 casos. A diferença aponta que a violência neste período foi cinco vezes mais frequente do que no período sem disputa eleitoral.
Entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, um total de 22 meses, o Brasil registrou 354 episódios de violência política, uma média de uma ocorrência a cada 44 horas.
Do total de vítimas, 102 pessoas tinham candidaturas registradas (76,1%) e as demais 32 não disputavam eleições, entre vereadores, prefeitos, vice-prefeito e secretários. A pesquisa identificou ainda quatro casos contra dirigentes partidários e dois contra sedes do PT e a equipe de uma candidata.
Dos episódios registrados no período, 54 (40,3%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos federais. Outros 48 casos (35,8%) tiveram como alvo pessoas que disputavam ou exerciam cargos estaduais. Já 25 episódios (18,7%) atingiram pessoas que disputavam ou exerciam cargos municipais.
Dentre as vítimas, duas pessoas morreram, de acordo com a entidade: dois assassinatos de agentes relacionados à esfera municipal, de um vereador e um de secretário municipal.
A ameaça foi o tipo de violência política mais recorrente no período, com 64 casos registrados. Em seguida, 33 casos de ofensas e 19 de agressão física foram registradas. Também foram registrados 11 atentados, cinco casos de criminalização.
Ainda segundo o levantamento, 71 dos casos, mais da metade, ocorreram na rua, durante atividades de campanha ou em eventos públicos.
A coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, Gisele Barbieri, comentou, por nota, que o diagnóstico pode municiar autoridades a tomarem providências e medidas preventivas:
As unidades federativas com maior número de ocorrência de casos: São Paulo lidera (16), Rio Grande do Norte (13), Minas Gerais (12) e Rio Grande do Sul (10). O Nordeste (48) supera o Sudeste (38).
Durante o 1º turno, 31,3% dos casos de violência política foram registrados no ambiente virtual. "É preciso que as plataformas tenham responsabilidade sobre a circulação desses conteúdos violentos. Nas redes ou nas ruas, a violência está sendo utilizada para intimidar e impedir que determinadas candidaturas e propostas possam se expressar", acrescentou a integrante da entidade.
Dos 42 casos registrados na internet, 34 tiveram mulheres como vítimas, o equivalente a 81%. Homens foram vítimas em oito casos. Fora do ambiente virtual, foram registrados 92 episódios, dos quais 36 tiveram mulheres como vítimas (39,1%).
A violência política contra mulheres aumentou de 50,6%, no período pré-eleitoral, para 52,2% durante o 1º turno. Ao todo, 70 mulheres cisgênero e trans foram atacadas, frente a 61 homens. Embora representem cerca de um terço das candidaturas, as mulheres foram vítimas em mais da metade dos episódios de violência dirigidos a candidaturas.
Dos 102 episódios dirigidos a pessoas candidatas, 60 tiveram candidatas mulheres como vítimas, o equivalente a 58,8%.
Entre os 32 episódios de violência física, as mulheres foram vítimas em 21,9% dos casos. Já entre os 97 episódios de violência simbólica, que incluem ameaças e ofensas, as mulheres foram vítimas em 61,9%, 60 casos.
Machismo ou misoginia foi maioria dos casos (45), seguido de racismo (9) e transfobia (5). Pessoas negras, pretas e pardas, representaram 44,8% (60) de todas as vítimas de violência política no primeiro turno.
Entre as mulheres vítimas, 19 das 70 eram mulheres pretas, mais de uma em cada quatro. Mulheres negras foram vítimas em 24,6% dos episódios de violência política, embora representassem 18,2% das candidaturas.
Os ataques diretamente racistas somaram 13 episódios em que oito tiveram mulheres pretas como vítimas.
A pesquisa elencou diferente formas de violências como as parlamentares Erika Hilton (PSOL-SP), Thabatta Pimenta (PV-RN), Natália Bonavides (PT-RN) e Raquel Lyra (PSD-PE), Macaé Evaristo (PT-MG), Brisa Bracchi (PT-RN), Andréia de Jesus (PT-MG) e Natália Bonavides (PT-RN) durante a campanha.
Foram apresentados alguns exemplos, como a da deputadas estadual Macaé Evaristo, que reuniu comentários publicados em suas redes sociais que continham racismo, misoginia e intolerância religiosa, além de ameaças e ataques de cunho religioso.
Entre o período pré-eleitoral e o primeiro turno, a pesquisa identificou 192 mulheres cis e trans atacadas e 54 parlamentares, governantes ou candidatos apontados como autores dessas violências. Das vítimas mulheres, 139 disputaram algum cargo em 2026 e 62 foram eleitas (45%).
Dos 54 autores identificados, 36 disputaram as eleições de 2026 e 22 foram eleitos. Em sete casos, autor e vítima foram eleitos para a mesma casa legislativa. É o caso de Erika Hilton e do deputado federal Lucas Pavanato (PL).
Pelo menos 11 autores identificados de episódios de violência contra mulheres tomarão posse na Câmara dos Deputados em 2027.
Ainda, segundo a publicação, em 26 episódios (19,4%), o autor identificado era agente público: 14 parlamentares ou governantes, sete agentes de segurança e cinco eram outros agentes públicos.
Para a coleta de dados as organizações monitoram e checam a cobertura jornalística nacional e regional diariamente e cruzam as informações com registros oficiais e denúncias públicas. Os resultados consolidados, incluindo os episódios registrados durante o segundo turno, serão divulgados em novembro.
Com dados mapeados desde 2016, a pesquisa Violência Política e Eleitoral no Brasil já mapeou 2.071 episódios de violações contra agentes políticos e lideranças, considerando dados lançados nesta quarta-feira (7).

Fonte: Sputnik Brasil.

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