Analistas ouvidas pela Sputnik Brasil foram uníssonas ao avaliarem que o poder de influência das grandes plataformas digitais, como gerenciadores das relações sociais, está "sem rédeas" e impactando a democracia do país.
Chatbots que operaram como cabos eleitorais, contas derrubadas sem justificativa, anúncios políticos pagos em dólar por anunciantes nos EUA, conteúdos de IA sem rotulagem: estas foram algumas das irregularidades cometidas por plataformas digitais no primeiro turno destas eleições.
A afirmação é de Daniela da Silva, diretora-executiva e cofundadora da organização CTRL+Z, que denuncia e combate abusos e violações das big techs no Brasil, como a que proíbe sistemas de IA de ranquear, recomendar ou favorecer candidaturas.
Um relatório com evidências documentadas foram entregues pela ONGaos órgãos de justiça competentes. Além da responsabilização das empresas, a ação pediu a divulgação sobre os lucros com anúncios ilegais, entre outras providências.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob a batuta do ministro Kassio Nunes recebeu material robusto com as evidências das irregularidades. Mas até o momento nada foi feito, afirmou da Silva.
Da Silva ressaltou, no entanto, que responsabilizar e punir apenas não basta: "A gente precisa de uma verdadeira reestruturação no modelo de operação das big techs, porque não tem como conciliar o modelo de operação delas hoje com a saúde do nosso sistema democrático", argumentou.
O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), com regras para moderação de conteúdo, sobre danos causados em crianças e adolescentes, bem como regras mais severas para responsabilizar as big techs por ilegalidades foram avanços recentes importantes, na opinião da diretora da CTRL+Z. Mas é preciso ir além.
"Uma coisa que é importantíssima é a regulação de mercados digitais, a responsabilização dessas empresas por práticas anticompetitivas para termos outro sistema de negócios que permita a emergência de outros modelos e ferramentas."
Mas a tarefa para os próximos anos será árdua. Um levantamento da ONG dirigida por da Silva identificou que quase todos os parlamentares brasileiros que mais apoiaram os interesses das big techs na última legislatura conquistaram cadeiras no Senado ou foram reeleitos para a Câmara.
Apesar da hegemonia das plataformas estadunidenses, novas redes sociais despontam no horizonte brasileiro. É o caso da plataforma chinesa Bilibli, que tem mais de 370 milhões de usuários no mundo e relançou seu aplicativo internacional em agosto de 2026 com interface em português, com foco em usuários e criadores brasileiros.
Ela citou exemplos de coletivos que têm desenvolvido tecnologias para armazenamento, de soluções para processamento de alta qualidade que podem ser aglutinadas e pensadas em um contexto cooperativo.
Além da gigante asiática, outras redes sociais do Sul Global estão buscando quebrar o monopólio de grandes corporações, como Meta (plataforma proibida na Rússia por extremismo), Google, Microsoft e Apple, sobre as comunicações digitais.
A própria ONG CTRL+Z utiliza a rede Matrix que visa a descentralização e liberdade protocolo ("idioma") aberto com a mesma proposta de mensagens instantâneas que as já famosas WhatsApp, Telegram, Discord.
Há ainda a Mastodon, que também tem estrutura aberta, descentralizada e focada na comunidade, como rede social. Em ambas as redes, qualquer pessoa, comunidade ou governo pode criar e gerenciar seu próprio servidor, ditando suas próprias regras de convivência.
Pesquisadora do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin) e integrante da Coalizão Direitos na Rede, Raquel Rachid lembrou que as plataformas mais utilizadas no Brasil são estadunidenses a entrada da bilibili, representaria não apenas uma disputa comercial e mercadológica, como também geopolítica.
Pós-doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP) e pela universidade russa HSE University (Escola Superior de Economia), Rachid também defendeu que "a ameaça estadunidense está muito nítida no contexto eleitoral brasileiro, em que a estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos já diz da influência sobre a América Latina. Então, zero surpresas".
Ela observou ainda que boa parcela da população não tem ciência de que a interação nas plataformas é condicionada por uma série de decisões com interesses empresariais, mercadológicos que passam por cima da autonomia do usuário.
Ambas as entrevistadas destacaram a importância de investimentos públicos no desenvolvimento de softwares livres como soluções alternativas.
Para da Silva, as alternativas às big techs são, sobretudo, "um movimento de resiliência", que diminui a dependência social, pública e política dos serviços das poucas empresas oriundas de um único país.
Rachid lembrou que o Brasil já foi muito atuante em investimentos para o software livre em anos anteriores:
Para a pesquisadora da USP e da HSE, dificilmente uma iniciativa privada, que busque desenvolver modelos robustos de inteligência artificial, terá condição de escalar sem suporte governamental "até mesmo, porque isso elide a necessidade de, enfim, gerar retornos financeiros, torna as iniciativas um pouco mais confortáveis para testar coisas e trazer possibilidades", opinou.
A pesquisadora frisou que não se pode incorrer, no entanto, no risco de que um fundo público para essas tecnologias seja utilizado para financiar o setor privado com fins unicamente de lucro:
Fonte: Sputnik Brasil.




